Opinião
Uma hist�ria singular
A vida sempre tem me dado experiências para refletir sobre as relações humanas. Uma dessas aconteceu em um entardecer, em um cenário de canaviais ao vento, chão verde e úmido, árvores de várias espécies que formavam uma cerca viva; o sol escondia-se no poente. Voltávamos de Recife quando, dois quilômetros após a cidade de Murici, uma pedra pontiaguda conseguiu vencer a cobertura de borracha que revestia o pneu traseiro de nosso veículo. Descemos, e o que parecia fácil tornou-se difícil. Carro novo, primeiro pneu a ser trocado, nós esbarramos numa dificuldade: era necessária uma chave para abrir o compartimento do pneu. Coisa de japonês. Dávamos tratos à imaginação de como resolver o impasse. Repentinamente, como resposta às nossas preocupações, observamos que à beira da estrada três pessoas se aproximavam: dois homens e uma mulher. Um deles, moreno, atarracado, por volta de 50 anos, e um casal que não passava dos 25. Pararam e ficaram nos olhando; expliquei o assunto e o homem mais velho adiantou-se em nossa direção. Fora mecânico, embora, atualmente, se dedicasse à agricultura, num programa oficial. Examinou, detidamente, o revestimento do pneu e pediu o livreto de instruções. E ali estava a solução: colado na última página encontrava-se a chave que abria o compartimento do estepe. Agradeci, sensibilizado pela ajuda. Perguntei-lhe o nome (Gilberto) e lhe entreguei um cartão de visita com meu endereço. Se algum dia necessitasse de meus préstimos, poderia dispor. Cerca de dez anos são passados, eu recebo um telefonema do Gilberto. Desejava uma intermediação para internar uma pessoa de sua família num dos hospitais da cidade. Falo com um amigo e consigo o internamento. Ele me telefonou agradecendo. Conversamos. Perguntei-lhe pelo casal que o acompanhava naquela tarde. Lembrei-me de que, mesmo à distância, observei que os dois discutiam asperamente. Senti que ele mudou o tom. Lamentou que sua filha deixara o marido e dois filhos que estavam em sua companhia. ?Terei sido um bom pai??. Perguntou-se. ?Sou muito trabalhador, nunca lhe faltou nada?. Respondi que os tempos mudaram e têm sido grandes as mudanças na instituição da família. O diálogo passou a ser a tônica do relacionamento familiar. Mesmo que o pai seja o provedor, espera-se que participe do cotidiano e seja um amigo e companheiro. Como diz dona Zefinha: ?Pai trabalhador é bom, mas se é carinhoso é bem melhor?. Uma conclusão que salta à vista: criar bem os filhos é um dos desafios da atualidade. (*) E médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.