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Opinião

No meio do caminho havia uma �rvore

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Outro dia, caríssimo leitor, ao me deslocar à lida diária e adentrar no buliçoso trânsito da Avenida Maceió, ali, próximo ao cemitério de Jaraguá, percebi, de chofre, o infortúnio que estava para ocorrer. Agonizantemente chocado entendi que ela estaria irremediavelmente condenada. Não havia nada que pudesse ser feito para impedir o que se descortinava e se avizinhava, perturbadoramente, logo à frente. Os homens, indiferentes ao que ocorreria, avançavam com uma crueza gélida, céleres, dormente após dormente, averiguando-os, escavando nas laterais dos trilhos e substituindo os antigos, atacados por pragas e umidade, por outros dormentes cortados recentemente, novíssimos, com suas seções retangulares perfeitas. A cada dia, ao passar para o trabalho, averiguava quanto a faina diária dos homens tinha avançado. E a cada novo dia verificava que o momento fatal chegaria. Inescapável. Inevitável. Era apenas uma questão de tempo. A previsibilidade daquilo me exasperava a tal ponto que comecei, quase sem perceber, a fazer complexos cálculos matemáticos para tentar ? comparando o que faltava ser percorrido pelos homens, com a velocidade do avanço das obras ?, definir o dia e a hora em que a fatalidade ocorreria. Quando iria sobrevir, inapelavelmente, o golpe definitivo da fria lâmina do machado ? deitando-a por terra agonizante ?, tal qual uma guilhotina decepa um pescoço esguio. Como a árvore surgiu ali, naquele lugar insólito, em meio aos trilhos, não tenho como explicar-lhe, amicíssimo leitor. Se foi plantada por alguém e com que intenção, do mesmo modo, não saberei dizer-lhe. Console-se, cordato leitor, e reconheça que é raríssimo explicar, de forma satisfatória e completa, o que se agasalha por trás das atitudes, dos comportamentos e das intenções humanas. No entanto, podemos, eu e você, juntos, conjeturarmos: será que o gesto de depositar ali a semente foi o de provocar-nos a enxergar o absurdo, o surrealismo, a bizarrice de possuirmos, no interior de uma cidade, trilhos que para nada serviam? Ou um grupo de jogadores de gamão na esperança de, ao crescer a árvore, sob sua sombra, zombarem da chegada de um trem improvável? Sim, claro, também concordo com o amigo. Não acho plausíveis nem prováveis essas explicações. Prefiro abraçar o argumento de que um vivente das redondezas, imbuído de um profundo compromisso com a natureza e de amor à cidade, ali, num gesto de uma solidão tremenda, abissal, depositou a semente para lembrar-nos, a cada dia, que a tarefa de tornar esta urbe mais humana e solidária é uma responsabilidade de todos. Seja como for, vi a árvore crescer e a ela me afeiçoei, e, com seu fim, perdeu-se em mim um pouco de esperança. (*) É superintendente técnico da Casal.

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