Opinião
O povo e o poder p�blico
Afinal, findo o carnaval que teve os invariáveis Rio de Janeiro, Salvador e Recife como inevitáveis e merecidos destaques e Maceió como referência de ausência de festividades, resta para os nativos locais e os gestores públicos, apenas uma questão: o poder público deve pelo menos pensar na possibilidade de realizar carnaval em Maceió? O Rio de Janeiro, onde além das escolas de samba ? grande atração para os que apreciam apenas observar o espetáculo, sem dele participar ?, vê ressurgir o carnaval de rua e Salvador, os quais acompanho apenas pela mídia; posso todavia relatar algo de Recife e Olinda, aos quais compareço há 30 anos, o poder público esteve sempre presente. Recife já impressionava bem pela bela e farta decoração e em que pese um Galo da Madrugada desgracioso na ponte Duarte Coelho, tinha nas harmônicas iluminações indiretas das demais pontes, com seus reflexos nas águas do Capibaribe, um apelo visual e sensitivo primoroso. Olinda também fez uma linda decoração, leve e alegre, onde as grandes figuras do carnaval olindense foram o destaque. A festa propriamente dita não poderia ter sido melhor, a não ser no que se refere ao serviço de táxis após o Galo da Madrugada. Fomos cedo para a concentração, às 7h da manhã, como todos os anos, para conferir de perto as alegorias, os carros alegóricos, os estandartes; o bloco saiu às 9h e nós dele às 16h; mas só conseguimos um táxi às 19h, quando já estávamos no limite. Em Olinda e no Recife Antigo, nos outros dias, embora a multidão fosse incalculável, os táxis funcionaram. Os dois momentos culminantes do festejo continuam sendo o próprio Galo e o encontro dos bonecos gigantes na terça-feira em Olinda; mas, acompanhar os incontáveis blocos tanto em Olinda, quanto no Recife Antigo é um prazer renovado. Ainda se vive momentos sublimes, como a interpretação de Villa Lobos por Antúlio Madureira na Praça do Arsenal em plena terça-feira gorda. A cada ano está mais valorizada a multiculturalidade do carnaval pernambucano com o investimento de recursos públicos na preservação dos maracatus, caboclinhos e blocos líricos, dando considerável retorno, tanto na pujança cultural, quanto financeiro e principalmente na imensa gratificação do povo, que em sendo Recife, uma das cidades mais violentas do País, vê nestes dias uma inacreditável aura de paz sobre a cidade . A presença do poder público no carnaval é não só desejada, como indispensável. Em Maceió, esta é uma questão ainda em aberto. (*) É médico e professor da Uncisal.