Opinião
Continuando nossa visita a Amsterdam n�1
Estamos chegando à gare onde deveremos trocar de trem. O guia pede que sejamos rápidos no desembarque, pois a demora na estação será de apenas 10 minutos. Essa notícia deixa-nos excitados e intraquilos, pensando se esse tempo será suficiente para descer toda a nossa imensa bagagem. Cada um volta ao seu lugar e procura juntar seus pertences para não atrasar. Um quarto de hora mais e avistamos o casario branco de um vilarejo, em cuja estaçãozinha deserta, paramos. Abandonamos a composição apressadamente, levando nossos volumes de mão. O guia vem nos avisar, aflito, que os carregadores contratados não compareceram. E, na Europa, existem milhões de desempregados! É preciso que os homens do grupo o ajudem a tirar as valises, antes que o comboio parta. Os companheiros se precipitam para dentro do trem e começam a jogar nossas malas na plataforma pelas janelas, numa agonia louca. Quando a locomotiva dá o sinal de partida o último volume está sendo colocado na gare, e somente o guia está dentro do trem. Ele salta para fora com o comboio em movimento. Aliviados vamos tomar chocolate e Coca-cola num barzinho da estação. Temos meia hora de espera, tempo bastante para um rápido lanche. Um holandês rechonchudo, de fartas bochechas rosadas, atende no balcão. Deve ter uns 60 anos e é loquaz e sorridente. Entre um e outro freguês que serve, tira uma baforada num cachimbo que segura na mão esquerda. Seus olhos pequenos são de um azul acinzentado que lembra o céu umbroso da Holanda. Veste uns calções de lã, pretos e fofos, e uma camisa de tecido grosseiro, quadriculado. Tem os cabelos completamente ocultos num gorro de pelúcia negra. Parece-se com uma daquelas figuras dos quadros de Halls. Uma adolescente de tranças de ouro e faces cor de pêssego maduro, lava as louças numa pia de aço inoxidável, cantarolando. Esfrega os copos, enxágua-os e eleva-os contra a luz para ver se estão manchados. ? Guta! O velho a chama. Ela larga os copos na pia, se vira, sorri, enxuga as mãos no aventalzinho branco, troca algumas palavras com o holandês e vem solícita ajudar a servir-nos. ?Minha neta! ? diz-nos ele, num inglês arrastado, apontando-a, orgulhoso, com o cachimbo. ? Bonita! ? exclamamos quase em uníssono, e o velho sorri satisfeito. Um cheiro ativo de cebola, alho, mostarda e peixe defumado sai de uma panela que cozinha sobre o fogão. Numa frigideira crepitam rodelas de salsicha dentro de gordura. Começo a sentir-me impregnada desses odores, o que não me desagrada. Apreço-me a tomar meu chocolate e abandono o bar, levando na mão uma gorda fatia de queijo amarelo e macio que venho saborear aqui fora. De pé na plataforma fico a perscrutar em volta o que há de interessante para ver.. (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.