Opinião
O carnaval e a literatura
O carnaval veio e se foi e, como é muito comum, trouxe alegria e descontração para muitos e tristezas para outros, vítimas de excessos, violências e drogas, por vezes tradução da ofegante epidemia carnavalesca. Recentemente, ouvi de uma amiga, uma curiosa pergunta que recebeu respostas antagônicas: ?O que seria da vida, afinal, se não houvesse carnaval??. ?Seria uma porcaria?, respondem foliões de carteirinha. ?Seria um bendito sossego?, contradizem os que detestam o reinado do Momo. Para muitos, uma ?catarse?, desabafo de emoções e extravasamentos de traumas reprimidos. Nem tanto, nem tão pouco, para ficar num meio termo. Entretanto, há outras alegrias para quem não cai no frevo ou no samba. Guardo, com especial predileção, contos de escritores famosos sobre o carnaval, enfoques diferentes sobre a folia momesca. Olavo Bilac, famoso pelos versos Ouvir estrelas, era admirador do carnaval. Num de seus textos conta a história de um ?conceituado comerciante, de vida regrada e projeção social e para quem o carnaval era um hiato, a anulação completa da sua consciência de homem e de chefe de família. No sábado de carnaval, despedia-se e partia para a folia, com os olhos acesos em febre e o coração aos pulos. Nos três dias seguintes, sequer via a família e, na quarta-feira de cinzas, ele voltava ao lar e ao trabalho, moído, pisado, contundido ? mas sem remorsos e sem arrependimentos?. João do Rio, mago da crônica jornalística do século passado, é autor do conto carnavalesco ?O bebê de tarlatana rosa?. ?Oh! Uma história... uma garota bonita, rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se oferecendo?. De postiço trazia o nariz, um nariz tão bem feito que era necessário observar bem para verificá-lo falso. Encontrou um companheiro de todo o carnaval. Fico por aí. O segredo de toda essa história carnavalesca estava no nariz artificial. Somente na última noite, após muitos amassos, ele puxa, repentinamente, o nariz postiço da companheira. Ah! Uma visão terrível, uma fenda profunda, através da qual ele via a garganta. Essa lesão, encoberta artificialmente, permitia ao ?bebê? aproveitar bem o carnaval. A medicina plástica atual teria solucionado essa lesão que com ela nascera, reconstruindo esse rosto, que era o lado sombrio de sua vida. Que tema árido, perdoem-me os leitores e me permitam ficar com o refrão carnavalesco: ?Vou-me embora/ vou-me embora/ eu aqui volto mais não/ vou morar no infinito/ e virar constelação/?. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.