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Cinemas para�so

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Palmeira dos Índios dos anos 50 era uma pequena e pujante cidade, onde o maior lazer eram os seus três cinemas. Dois muito pequenos, abafados e desconfortáveis e um maior e mais ventilado, o Palácio, que os nativos cognominavam cerimoniosamente de ?cinema do Itamar?, alusão respeitosa ao empreendedor proprietário que dotara o município de tal sala de projeções. Menino, da casa de meu avô Belinho situada nas cercanias do cinema do Itamar, lembro que antes de começar a soiré, o serviço de alto-falantes tocava inevitavelmente a música Only You, pelos The Pleiters. Aquele sinal noturno me despertava tamanha cobiça que meu avô, um homem muito religioso e muito severo, que jamais foi ao cinema, exclamava de sua cadeira de balanço; ?A escola de Satanás está chamando!?, o que ainda me despertava mais curiosidade pelas películas ali projetadas. Em Maceió, a primeira moradia foi perto do cine Rex, em frente ao tio João, do sobrado do qual, assistíamos pelas portas laterais abertas do cinema pequenas pedaços dos filmes proibidos ali projetados. Era um pé de Victor Mature, uma nesga de seio de Elizabeth Taylor, uma banda da bochecha de Lana Turner. Descontávamos nas matinês livres de domingo: víamos as séries completas, os filmes inteiros, tomávamos picolé de baunilha e negociávamos gibis usados. Tivemos o Plaza, o Lux, em cuja tela Úrsula Andres saiu molhadinha das águas mornas do Caribe, em sumários trajes que enlouqueceram não só James Bond como todos os adolescentes da província, que se pudessem eliminavam o satânico Dr. No ligeirinho; mas o cinema que mais deixou saudades foi o São Luiz e as suas seções de arte aos sábados de manhã, após as aulas no Moreira e Silva. Os dilemas de Bergman, as fantasias de Felinni, os enigmas de Antonioni, o surreal de Bunuel , eram precedidos por explanações de Radjalma Cavacante e do saudoso Gildo Marçal, em seguida repartidas no escurinho do cinema com as namoradinhas do colégio. Ainda tinha o bar do chope para inflamadas discussões sobre a fita vista. Esta magia levou Vinícius de Moraes a escrever: ?O cinema é infinito,não se mede. Não tem passado nem futuro.Cada imagem só existe interligada à que a antecedeu e a que a sucede?. As inaugurações de novos e modernos cinemas em Maceió animam os que gostam de um bom cinema; seria ainda melhor se fossem na parte baixa da cidade, pois as nossas estreitas e congestionadas ruas não estimulam a circulação na cidade, mas justificarão o esforço, desde que os filmes programados sejam bons. É um avanço cultural importante. (*) É médico e professor da Uncisal.

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