Opinião
Aur�lio, ca�ador de palavras
O que são palavras? ?São trens, navios, automóveis, asas de passarinho ou de avião, botas de sete léguas, como aquelas dos contos da meninice, que nos transportam a velhos tempos, nos reacendem antigos amores, nos recompõem, num abrir e fechar de olhos, queridas e perdidas paisagens. Não só isto: viajamos nelas, e com elas, a terras ignoradas e remotas?. Eis um pouco do pensamento cristalino de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, ao discorrer, em forma de crônica, sobre o significado das palavras. O dia 3 de maio deste ano vai marcar o centenário do nascimento desse alagoano ilustre, filho do modesto e pacato município de Passo do Camaragibe. Nesta cidade, aliás, nasceu também Fernandes Lima, que assumiu o governo de Alagoas quando o menino Aurélio, seu conterrâneo, tinha apenas oito anos de idade. Na proximidade dos cem anos do mestre Aurélio, que, de maneira fenomenal, carimbou seu nome como sinônimo de dicionário no Brasil, recebo gentilmen-te da jornalista Milena Andrade, um exemplar da revista Graciliano. Elogiosa iniciativa da Cepal, a edição especial homenageia o nosso querido dicionarista, que lançou a primeira obra em 1975. Nada mais feliz do que utilizar um instrumento, intitulado de Graciliano Ramos, para celebrar a vida e a obra do mestre Aurélio. O alagoano ?Graça?, outro gênio e um dos maiores romancistas brasileiros, era exímio em lapidar palavras, considerada viva e dinâmica como o cotidiano social. A linguagem acompanha um povo no decorrer de sua existência. Muito antes de a Constituição do Brasil, promulgada em 1988, consagrar a regionalização da produção cultural como princípio fundamental para preserva-ção de nossas peculiaridades, o mestre Aurélio ? na condição de caçador da alma das palavras ? já contribuía com o regionalismo. A leveza de seu dicionário talvez estimule à coletividade a preservar essa ferramenta indispensável à integração do País. Caçando significados, mestre Aurélio peregrinava pelas feiras, conversava com pessoas comuns e anotava na sua inseparável caderneta os brasileirismos que brotavam da comunidade. Ele democratizou o dicionário, e o mestre ?Graça?, com sua extraordinária capacidade de síntese, ensinou a todos nós: ?A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer?. (*) É jornalista.