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Opinião

Memorial Rui Palmeira

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As ruas Ângelo Netto, Comendador Palmeira e Saldanha da Gama formam, com a Praça São Gonçalo, o quadrilátero que delimitou meus primeiros anos de vida. Nessas quatro linhas encontravam-se o Colégio Guido, as casas de meus avós (paternos e materna), as vendas da Belinha e de seu Neco e a Padaria Santa Terezinha.Havia ainda duas referências fundamentais: as casas de tio Baby e do Guilherme. Embora tivesse apenas quatro ou cinco anos, a segurança da pequena Maceió permitia que eu me deslocasse livremente nesse perímetro. Essa reminiscência afluiu há poucos dias, quando Guilherme Palmeira disse-me que o próximo dia 2 de março seria o centenário de seu pai. É que minhas andanças infantis terminavam sempre ?na casa do Guilherme?. O terreno largo, parcialmente gramado, permitia incontáveis brincadeiras. Guilherme, Nadja, Moacyr, os ?meninos de Tio Baby? e eu aprontávamos o que a imaginação nos ditava. A convivência nas brincadeiras gerou em mim um parentesco afetivo: para mim, Guilherme e seus irmãos eram primos. Acostumei-me, assim, a enxergar em Rui Palmeira um tio, tão apreciado quanto os irmãos de meus pais. Só não lhe tomava a bênção. Era um tio sisudo, de nenhum riso, mas assim mesmo, carinhoso e bem humorado. Interessado em tudo o que fazíamos, tinha sempre uma tirada irônica, para comentar nossas façanhas. Interessava-se por tudo ? desde o futebol que jogávamos no largo em frente, às matérias que estudávamos no colégio. Mais tarde, quando me transferi para o Rio de janeiro, a proximidade com o Senador Rui Palmeira reatou-se. Já estudante universitário, pude avaliar a extensão de sua cultura e o grau de seu interesse pelas questões sociais. Descobri que sua erudição era constantemente a serviço do espírito empreendedor. Rui Palmeira era um pioneiro. Alagoas deve a Cooperativa dos Banguezeiros ? a primeira do gênero, em todo Brasil. Graças à Cooperativa, a transformação dos senhores de engenho em fornecedores da cana transcorreu sem maiores tragédias. Só por isso, Rui merece uma bela estátua. Mantive com ele poucos diálogos. A timidez que me dominava naquele tempo impedia maior aproximação. Por isso, decidi reler O Político ? em que Divaldo Suruagy conta vários episódios de sua convivência com Rui Palmeira. O livro confirmou o ótimo juízo em que eu mantinha o meu tio torto. De tudo o que reli, um documento merece destaque, nesse momento em que a consciência ética brasileira enfrenta dolorosa crise: a carta-testamento escrita por ele, no momento em que teve consciência de que estava no final da vida. Quase que rogando desculpas à família, Rui descreve seu patrimônio: um apartamento, uma Kombi e um rol de dívidas. Mais que estátua, Rui Palmeira faz jus a um belo memorial... (*) É ministro aposentado do STJ.

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