Opinião
Carta a um homem de bem
Demorei demais para fazê-la. Há um atraso não menos que 20 anos, quando você nos deixou. Sempre tive medo de não conseguir dizer tudo que viesse de dentro, ou até mesmo que as lágrimas obstaculizassem a percepção visual ou borrassem o papel onde estaria a escrever. Mas hoje, no seu centenário de nascimento, uma força interior prevaleceu; espero cumprir essa dívida ?secular?. Não sei se bem, mas a cumprirei. Pois bem, meu pai, é muito significativo poder externar toda essa grandeza que você soube portar, todo este exemplo de homem que você foi, toda sua simplicidade, honestidade, o ser prestativo que sempre o caracterizou. Apesar das duas décadas da sua partida, tempo bastante para marcar os cabelos de branco, sua lembrança é viva, e será sempre, porque você não foi feito para ser esquecido. Seu exemplo é perene, ficou. É difícil se adequar à realidade de hoje, pois, se custa ? e muito ? encontrar homens de conduta parecida. Está se perdendo o sentimento de lealdade, de sinceridade, de amizade, de ser honesto... E tudo isto você tinha aos montes. O tempo passou, mas não o suficiente para diluir a lembrança de sua postura. Foram tantos os exemplos demonstrados, que deixavam aquele guri de calças curtas orgulhoso do pai que tinha. Lembro-me, de certa feita, de quando você me mandou um ?papel? para ser pago no Banco do Brasil. Atendido pelo senhor Zeca Oliveira, de saudosa memória, que observando a data da duplicata (hoje eu entendo do ?papel?), me mandou de volta porque o vencimento iria acontecer muito tempo depois. E eu tive de retornar ao banco com o recado de que não havia engano, era para ser pago mesmo. Você foi assim. Nunca, jamais alguém bateu à porta da nossa casa para lhe cobrar nada. Você não dava chance. Há outra passagem, nos contada como exemplo de responsabilidade que seus filhos deveriam ter. Foi quando você ainda adolescente, com a visão nata de um grande comerciante, que acabou sendo, talvez, o maior da sua cidade, e trabalhador, numa festa de Natal, teve a iniciativa de, ao invés de desfrutar dos festejos, tão atraentes para os jovens da sua idade, realizar um empreendimento. Você alugou um carrossel, brinquedo típico da época, para ganhar algumas moedas que pudessem ajudar nas despesas de casa, pois era de família numerosa. E o dia já claro, retornou ao lar com os objetivos alcançados, ou seja, com uma sacola repleta e a entregou a sua mãe. Existem muitas histórias a contar. Elas estarão, indelevelmente, na minha memória, porque elas dizem respeito a um grande Homem (é com H maiúsculo mesmo!). (*) É professor e cirurgião dentista.