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Opinião

Reassumindo a identidade perdida

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Em um dos clássicos de Shakespeare, o Hamlet, a personagem afirma ao interlocutor, ?que há mais coisas entre céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia?. Transponha, leitor ou leitora, essas palavras para o fato que vou narrar e que causou surpresa a muitos. Marta, cuja origem familiar era gente de bem, boas pessoas, de ânimo agradável e solidário, cresceu e ficou adulta, extremamente má, segundo uns, e apenas orgulhosa, segundo suas amigas mais próximas. Arrastada pelas águas do orgulho, mantinha-se autoritária, egoísta, presunçosa, sem consideração aos interesses alheios. Seu relacionamento com a família era sempre um campo de batalha. O marido Roberto, empresário bem sucedido, a tudo perdoava com paciência, contrapondo a explicação de que era necessária essa posição para facilitar a educação das filhas. A mãe de Marta sempre dizia: só um grande choque, um trauma emocional, vai fazê-la acordar para a realidade, pois esse não é o seu código genético. Anos se passaram e um fato abalou a cidade. A empresa do marido foi assaltada por um grupo de homens armados que se apossaram do dinheiro e objetos de valor. Um dos ladrões mantinha sob a mira do revólver o marido de Marta. De repente, a título de brincadeira, um dos ladrões gritou: polícia! Correria e fuga. Nervoso, o assaltante que vigiava o empresário atirou atingindo-o no coração. Para a família foi grande o sentimento de dor, sofrimento e saudade. Entretanto, o que mais chamou a atenção foi a reação da Marta, que, de tristeza e angústia, passou à depressão. Nada a consolava. As amigas insistiam: era necessário acordar do pesadelo, recuperar-se, cabia-lhe agora assumir a família, identificar-se como provedora na manutenção do grupo familiar. Ofereceram-lhe o livro do padre Fábio de Melo Quem me roubou de mim?. Leia, insistiram. Essa obra ajudará em sua recuperação. Dentro de algum tempo, a melhora foi visível. A leitura fez com que acordasse sua força interior, vontade de viver e de reassumir a identidade perdida. Aceitou o desafio de reencontrar-se. ?Nascemos indivíduos, mas a condição de ser pessoa é um lugar a ser alcançado?. Marta voltou à vida. Assumiu uma nova condição humana, amável e solidária. ?As alegrias costumam ser preparadas no silêncio das duras esperas. Não é justo que o ser humano passe pelas experiências de calvários sem que delas nasçam experiências de ressurreições?, assim afirma o filósofo e teólogo Fábio de Melo. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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