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Opinião

Viagem interrompida

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Minha amiga de São Paulo, Letícia, telefonou-me dias atrás pedindo-me para eu atender a uma companheira de trabalho que viria visitar Maceió na próxima quinzena. Acrescentou tratar-se de uma pessoa culta, viajada e que seu maior desejo seria conhecer nossa cidade. Disseram-lhe que o azul do mar era tão belo, talvez mais que o de Atenas, caminhando para o infinito. Ela vinha com uma amiga por meio de uma companhia de turismo e ambas iriam depois a Recife e a Natal. Claro que eu afirmei que daria toda assistência possível nos dias em que ela estivesse livre do programa da excursão. Teria maior prazer nisso. Dizia assim pensando no quanto Letícia fazia por mim quando eu estava em São Paulo. Passados alguns dias, à noite, estava absorta lendo Nélida Pinon, quando o telefone tocou. Ouvi no momento uma voz nervosa que parecia estar presa a uma grande aflição. Mal podia mesmo falar. Identificou-se como Laura, de São Paulo, amiga de Letícia. Chegara a Maceió, dois dias atrás, mas fora acometida, logo que chegara, por uma dor de dente, uma espécie de nevralgia que a estava deixando louca. Tomava comprimidos, mas não adiantava. Era isso. Pedia para que eu a ajudasse, informando o nome de um dentista que pudesse tirá-la dessa aflição. Era um caso de urgência! Então, mas que depressa, pedi o telefone de seu hotel, apartamento e prometi que logo de manhã telefonaria para o profissional e certamente conseguiria marcar uma hora para ela. E assim fiz. O meu dentista prontificou-se a atendê-la e liguei para Laura. Ela me agradeceu muito e me falou querer me conhecer logo que essa crise passasse. Eu ainda me desculpei por não poder acompanhá-la, visto ter uma reunião importante naquele dia. Mas, passados dois dias, silêncio. Liguei para o meu dentista e ele me falou que a senhora de São Paulo não havia aparecido. Nem mesmo telefonado. Preocupada, liguei para Laura. Ela havia saído. Após algumas horas, tentei novamente. Com uma voz nervosa, quase gritante, ela me falou. Disse-me que se dirigira para o dentista recomendado por mim, acompanhada por sua amiga. Tomara um táxi indicado pelo hotel. Mas ao estacionar perto do consultório... Eu não podia imaginar o que acontecera! Quando saíra do táxi, dois bandidos a atacaram, tomaram sua bolsa com dinheiro, documentos, cartões de crédito, tudo enfim. Ela tentara reagir, mas fora empurrada com toda a força e batera com a cabeça, caíra no chão. Ferira o braço e desmaiara. Sorte que sua amiga não fora atacada. Não houvera tempo para isso, certamente. Fora levada para o Pronto Socorro, levara alguns pontos na cabeça, tivera vários hematomas e agora estava descansando até a hora e ir embora. Não ficaria mais um dia nesta cidade sem lei. Em São Paulo ela andava por todos os lugares possíveis e imagináveis e nunca acontecera nada. ?Terra de bandidos!?, me disse. A amiga se quisesse podia ficar. Mas, ela, nunca. Não tinha cor de mar e gente hospitaleira que a fizesse voltar aqui!?. (*) É escritora.

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