Opinião
Amsterd� (continua��o)
Terminamos de jantar, agradecemos ao músico simpático que tocou para nós, e agora nos encaminhamos para o cais que fica em frente ao hotel. Compramos tickets e embarcamos numa lancha para fazermos um passeio pelos canais. Nas águas escuras e tranquilas vemos reflexos da policromia irrequieta dos anúncios luminos. Por mais de duas horas percorremos essas vias aquáticas, tão usadas pelos holandeses para se locomoverem pela cidade. Amsterdã, erguida entre esse Dédalo de canais, é chamada a ?Veneza do Norte?. Uma guia de voz vibrante, agarrada a um microfone, vai indicando os monumentos e prédios de interesse turístico. Vemos igrejas, palácios, fortalezas e pequenas casas centenárias, sempre ladeadas pelas edificações de vários andares, pintadas de marrom, com as janelas e cruzetas em branco, próprias da arquitetura holandesa. São engraçadinhas, mas se tornam monótonas pela repetição constante. Cansados e sonolentos, vemos com alegria a lancha atracar no mesmo molhe de onde partimos e a guia anunciar o fim do passeio. A noite está frígida e o céu enuviado é de um negro desbotado. Quando o telefone toca avisando-nos de que já são 7 horas da manhã, meu marido e eu já estamos de pé, quase prontos para descer. Meu companheiro enganou-se ao olhar o relógio e me acordou às 6 horas. Perdemos 60 minutos de um gostoso sono e não temos o que fazer, pois até o café só começa a ser servido daqui a meia hora. Os corredores do hotel estão ainda desertos. Vamos para a rua e ficamos a observar os barcos de pescadores que navegam lentamente pelo canal rumo ao Zuiderzee, o grande golfo que banha Amsterdã. Alguns têm as cabines em forma de casa, com jardineirinhas floridas nas janelas. São uns encantos! O tempo continua ensombrado e tristonho. Nuvens de chuva se desenham no horizonte. Às 9 horas o grupo está reunido no ônibus e vamos, então, fazer a visita da cidade. À proporção que andamos constato o quanto o Centro de Amsterdã mudou. Era antes uma cidade limpíssima, com as vitrines mais bem arranjadas da Europa, mas já não é mais assim. Encontro-a suja e grandes magazines estandardizados substituíram as lojas de bom gosto. Aliás, sente-se que toda a Europa, principalmente o norte, está sofrendo a influência americana da padronização. Artigos feitos às pressas, lucrativos, baratos, vistosos, mas mal acabados e sem propriedade. As mesmas coisas que encontramos em toda parte. A indústria pouco a pouco vai destruindo o artesanato, menos rendoso, porém muito mais bonito. O europeu está substituindo aquele amor à tradição, pelo apego ao conforto do que é moderno e prático. A Europa rejuvenesce em detrimento da sua autenticidade! (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.