Opinião
A grande empresa
A vida parece ser vivida quando se tem um ideal a colimar, um ideal a realizar. E o maior ideal de nossa vida é nossa própria vida. Esta é a maior empresa que devemos administrar para que não entre em falência. Vivemos em um mundo em que se valorizam as coisas e não o ser humano por causa de quem existem as coisas. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios da estrada, de todas as incompreensões e períodos de crise. Podemos cobrir-nos nos lençóis de defeitos, podemos irritar-nos, rolando, de um lado para outro, na cama, na espera do sono, mas não podemos esquecer-nos de que estamos lutando para que a empresa de nossa vida não entre em falência. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se um protagonista da própria história. Ser feliz é utilizar as pedras do caminho, juntá-las todas e iniciar o grande castelo da felicidade. Mesmo atravessando desertos infindos, ser feliz é ter capacidade de encontrar, ao longo do deserto, um cristalino oásis no recôndito mais secreto do nosso ser e agradecer a Deus, ao raiar de cada manhã, o milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos, mas aceitá-los, assimilá-los e sublimá-los para que se tornem vida de nossa vida. Ser feliz é não ter medo de sorrir diante de nossos defeitos, é ter coragem de ouvir um não, de enfrentar, com galhardia, a máscara de um sorriso que esconde uma traição. Ser feliz é não procurar ansioso o porquê de uma crítica injusta. O importante é saber de uma coisa: quem se esconde atrás da máscara, merece o nosso perdão. O resto é resto e desamor. Procuremos bem administrar a empresa de nossa vida, sem olhar para trás, mas sempre para frente, à procura do endereço certo do nosso caminhar. Feliz de quem tem endereço certo na vida, sabendo para onde caminha. Nunca o dissabor que nos enerva, nunca o sofrimento que maltrata, nada é mais atroz nem asqueroso como a máscara de quem traz oculto no seu rosto o retrato da traição. Na verdade, mais vale morrer mostrando o que se é, que viver iludido, na máscara do não ser. Faz oitenta anos que caminho à procura de moldura para aquele rosto que não me engana, quando confessa: eu te amo. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e presidente da Academia Alagoana de Letras.