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Anjos e colibris

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RONALD MENDONÇA * Monstruoso incêndio ameaçava a vida da floresta e de todos aqueles que dela dependiam. Passado o alvoroço inicial, sob a direção do leão, os animais reuniram-se na beira do rio para armar estratégias para deter a voraz marcha do fogo e organizar brigadas para socorrer as vítimas da catástrofe. Distribuídas as funções levando em conta as qualidades natas de cada um, coube ao papagaio, munido de uma biruta e de um alto-falante, o papel de informar aos companheiros sobre a direção dos ventos e a presença de eventuais novos focos de incêndio, e assim foi feito. Os macacos escolheram subir nas árvores mais altas e de lá fazer xixi sobre o fogaréu -numa clara imitação dos aviões-pipa, enquanto que aos elefantes, como era óbvio, foi delegado o uso da enorme tromba como mangueira para aspergir água tão longe quanto possível. A participação foi maciça; foi bonito ver velhos inimigos darem-se as mãos, até mesmo as cobras, conhecidas pelo atávico pavor de fogo além do relacionamento social pouco ameno, insistiram para bater com o rabo o fogo-de-monturo. Foi nesse instante que alguém chamou a atenção para o apressado vôo do pequeno colibri, até então ignorado, carregando no seu delicado bico uma gota d?água. Às risadas e gozações da bicharada, o doce beija-flor teria respondido: ?Eu também estou fazendo a minha parte?. Numa outra dimensão, conta-se que Santo Agostinho, respeitado teólogo católico, passeava na praia enquanto tentava compreender o mistério da Santíssima Trindade, quando teve sua atenção voltada para um garotinho que, com a mão em concha, pegava água no mar e corria para depositá-la num pequeno buraco na areia. Intrigado, Agostinho aproximou-se da criança para saber que brincadeira era aquela, ao que lhe foi respondido que não era brincadeira ? ela estava de fato esvaziando o mar para colocar naquele buraquinho. Diz a lenda que, ante a descrença do abade, o anjo (era um anjo) teria retrucado: ?É mais fácil secar o mar do que vocêentender o mistério da Santíssima Trindade?. Peço perdão pela possível inverossimilhança dos fatos acima. É que esta sema-na, num acesso de senso de humor, o candidato governista a presidente da República, em artigo publicado na Folha de São Paulo, depois de auto- elogiar-se e de dizer que as ?100 melhores cabeças do Brasil? (amigos? Esposa?) prepararam um plano de governo para si, convida o eleitor a crer que, nos poucos instantes da solene solidão da cabine eleitoral, ele, eleitor, seria o guardião e o grande beneficiário das riquezas nacionais. Talvez seja a hora de o anjo-colibri-eleitor saber exatamente quem foi que andou alimentando (e lucrando) com esses incêndios que não param de devorar o País. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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