Opinião
Empulha��o
Outro dia, caríssimo leitor, deixei-me seguir livremente através do curso dos meus pensamentos que me arrastaram à seguinte conclusão: os governos, quase sem exceção, possuem inclinação à manipulação dos números das suas realizações ou dão uma importância desmedida às coisas ínfimas que fizeram. E isso ocorre aqui e alhures. Fazem, os governos e seus marqueteiros, um esforço enorme para convencer-nos a aceitar, como certeza, o que mais se parece com falsidade. Acredito que, sem essa artimanha, eles, os governos, não durariam um dia sequer. Talvez torne-se necessário sempre solicitar os préstimos da empulhação para sustentarem-se de pé perante a opinião pública sedenta de realizações e soluções para seus problemas, que são infinitamente maiores do que o arsenal que os governantes possuem para resolvê-los. Ó momento sublime, ó instante grandioso, ó evento raríssimo em que a verdade das limitações são explanadas pelos governantes com clareza para a população! Normalmente, a lacuna, o vácuo, entre o que a população deseja e o que é possível ser realizado, é imediatamente preenchido com a empulhação. Esta é, infelizmente, dileto leitor, a verdade nua e crua. Dar-lhe-ei um exemplo: tomemos o caso da energia eólica no Brasil. Segundo o governo estamos, neste campo, indo de vento em popa. Os nossos governantes, rufando os tambores, alegam que a taxa de crescimento da capacidade instalada de geração de energia eólica aumentou 76%, crescendo mais do que a Índia, EUA e Europa. ?Um fato auspicioso?, afirma o ministro responsável pela área. ?Uma coisa formidável?, repete, em coro bajulador, o séquito de assessores, pois, por razões de ofício, aí estão para isso. No entanto, o fato que não foi explicado é que o Brasil, nessa área, cresceu do nada para quase coisíssima nenhuma. Em nada mudou a realidade que existe. O governo, na tentativa de embaralhar as idéias dos cidadãos, anunciou apenas a taxa de crescimento deixando de informar que atingimos o pífio número de 606 megawatts de geração de energia proveniente dos ventos. É um valor ridículo. Saímos do nada para quase nada. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos, citado como referência pelo governo, possuem 35.000 megawatts de energia eólica instalada; a Índia já atingiu 11.000 megawatts e a Europa alcançou, há muito, o número de 76.000 megawatts. Todos muito acima dos nossos irrisórios 606 megawatts. A verdade é que o Brasil não possui uma política de expansão de energias renováveis. Desafortunadamente não possuímos investimentos, incentivos fiscais, prioridades e planejamento para essa área. Portanto, desconfiado leitor, quando você ouvir um arauto governamental falando, o melhor a fazer é manter seus olhos e ouvidos bem abertos e tirar conclusões por si mesmo. (*) É engenheiro mecânico.