Opinião
Flagrantes do autoritarismo
A prisão da gerente dos cinemas Centerplex, inaugurados recentemente, por um grupo de policiais civis fortemente armado, após a moça ter impedido a entrada do grupo, foi um dos fatos ocorridos que, tanto pelo inusitado, como pela sua associação com o velho costume do abuso do poder entre nós, marcaram a semana em Maceió. Mas, infelizmente, a coisa não fica por aí. Sem merecer nenhum destaque, nem ao menos uma notinha na mídia, a troca dos postes de iluminação da orla da Pajuçara e da Ponta Verde deveria merecer um pouco mais de atenção e explicações para os contribuintes, afinal, os anteriores, colocados há tão pouco tempo, sendo de estrutura tão rija como eram, pouco tempo depois foram substituídos por outros menores, aparentemente muito mais frágeis e muito mais sujeitos às intempéries salinas da região. A troca não mereceria um mínimo de explicação? Também na mesma orla, o poder público derruba barracas privadas irregulares, abrindo os horizontes, liberando o nosso extraordinário mar, mas há pouco tempo erigiu várias outras que, desde o início da Pajuçara, ocupam privilegiado espaço, que é ocupado nas caladas das noites por desocupados que lá fazem de tudo o que não presta, ao tempo em que poluem o visual maravilhoso de nosso oceano. Não é uma contradição imensa? Medrando paralela, perigosa e persistentemente ao lado do nosso atraso econômico e dos nossos baixíssimos índices de desenvolvimento humano e social, estão o autoritarismo e o poder arrogante do Estado, insistindo em impor a sua vontade sem prestar contas à comunidade que o banca. Tamanha e entranhada está esta cultura que, mesmo nos estratos mais periféricos da estrutura estatal, como os policiais civis, estes se acham no direito de usar e não pagar por serviços privados que todos nós pagamos. Em muito boa hora o vice-governador José Wanderley determinou que se instalasse sindicância para investigar o que ocorrera no cinema, reiterando a sua trajetória democrática e sua aversão ao abuso da força, mesmo que esteja a serviço do poder que representa. Os adeptos do autoritarismo, aqueles que defendem o uso abusivo da força em qualquer circunstância, mesmo que sobre cadáveres de presos de consciência, devem ser contidos. Nas situações extremas, como a de Cuba e seu cadáver faminto, quando Lula defendeu o autoritarismo cubano e em muitas outras da triste história de Alagoas, caberiam a máxima perversa de Mark Twain: ?Em questões de Estado, cuide das formalidades e pode esquecer as moralidades?. (*) É médico e professor da Uncisal.