Opinião
Governar � tomar atitudes
Recente trabalho de pesquisadores da Kellog School of Management, nos Estados Unidos, chega à lamentável conclusão de que o poder torna o ser humano corrupto, mesquinho e hipócrita. Os testes comportamentais aplicados em voluntários revelaram o quanto os poderosos costumam mudar para pior. ?Quem detém o poder acredita que deve ser excluído de certas regras?, sustenta o psicólogo social Adam Galinsky, professor de ética e decisões em gerência. O professor americano vai mais longe ao concluir a pesquisa: ?Os poderosos se sentem psicologicamente invisíveis. E, por causa dessa sensação de invisibilidade, eles se permitem a agir de maneiras imorais, ao passo que outras pessoas não agiriam assim por medo de punição. A pesquisa mostra cientificamente que, não só as pessoas agem imoralmente, quando podem, como elas se tornam hipócritas, defendendo padrões comportamentais mais rígidos para os outros do que para si mesmas?. A reflexão em torno dessa pesquisa é válida para um sem número de circunstâncias que marcam o nosso cotidiano social. Lembro-me, ainda menino, quando meu pai indagava: ?Quer conhecer o caráter do sujeito??. Para ele próprio asseverar: ?Ponha o poder em suas mãos?. Estacionar em local proibido, avançar o sinal e dirigir de maneira perigosa, sobretudo quando o condutor se apodera de veículo suntuoso, eis alguns exemplos de conduta emanados por indivíduos que se sentem donos do mundo. Não há como deixar de associar ao estudo a tal da célebre ?carteirada?, que se converteu numa espécie de artefato bélico, sacado por policiais e que levou à cadeia, de forma truculenta e criminosa, uma gerente de cinema. Como diz a pesquisa, para consumar tal desatino, aqueles que são pagos para oferecer tranquilidade ao contribuinte nem se fizeram de rogados: dispensaram até o escurinho do cinema. E o comportamento do governo do Estado diante desse episódio que indignou o cidadão e maculou, mais uma vez, a imagem de Alagoas no País? Omisso, corporativista e contraditório. Governar é também tomar atitudes justas no tempo correto. No mínimo, a imediata palavra governamental deveria ser o de mandar apurar o grave incidente. A governança moderna, tão debatida em épocas eleitorais, ensina ao mandatário a dar exemplos. E, o melhor deles é combater o manto protetor da impunidade ? assim como diagnostica o estudo ?, que estimula a injustiça e a violência. Para fazer valer os direitos difusos do cidadão e debelar esse clima de vale-tudo, nada melhor do que fortalecer as instituições e democratizar o exercício do poder. (*) É jornalista.