Opinião
Vinte de mar�o
20 de março. Ele não gostava de comemorar o aniversário. Talvez por isso, também não gosto. Dizia que, como conhecia muita gente, ?só fazendo uma festa no Trapichão e mesmo assim, ainda ficaria alguém esquecido?. E não queria que se organizasse nada. Havia sempre um almoço ou jantar em restaurante de sua preferência, com os mais próximos e a família. Por isso, as comemorações eram sempre realizadas nas instituições onde trabalhava, na ocasião: em alguma secretaria, no Hospital do Câncer, no Haia, etc. As lembranças das histórias vividas, contadas por vezes com emoção, por vezes com risos, reviviam o garoto criado sob os olhos de mãe viúva e avô materno, exigentes e rígidos, tanto no desempenho escolar, quanto no conhecimento de sua situação financeira ? pensão paterna; curioso, valorizava sempre tudo que recebia, em oportunidades e em presentes. Louco por doces, se o avô ou tios traziam alguma novidade da rua e distribuíam com as crianças da casa, que logo corriam a devorar os quitutes, ele esperava que terminassem e só então saboreava, mui lentamente, sua porção, acompanhado dos olhares ávidos dos demais. Aluno exemplar do Colégio Diocesano, hoje Marista, foi surpreendido conversando com um colega durante a aula; repreendido, recebeu como castigo copiar muitas vezes uma frase no quadro. Indignado, esperou o mestre sair, pulou a janela e foi para casa, na Praça Deodoro. Fincou pé, apesar da tempestade, dizendo que não retornaria à sala de aula; não houve apelo, inclusive da direção da escola, que lamentava perder um ótimo aluno, nem ameaça de castigo. Difícil mesmo foi conseguir vaga no Lyceu Alagoano; só o bom relacionamento familiar salvou a conclusão daquele ano letivo. Ria muito contando este fato, dizendo que a economia com a gratuidade do novo colégio abrandara a reação materna. Quando fez a Primeira Comunhão, ainda no Diocesano, implicou com a veste branca, tradicional. E não houve jeito, comungou com um terno azul-marinho. Adolescente, resolveu ser médico numa família de homens do Direito; não foi uma decisão fácil, ainda mais para estudar em Salvador; enfrentou a responsabilidade de se manter sozinho e fazer durar a mesada recebida de Maceió. Essas e muitas outras recordações fazem parte dos nossos dias. Sua presença forte, seu espírito altivo, sua dignidade, seu exemplo são seu grande legado. O tempo, todos dizem, é o melhor remédio para atenuar a dor da perda. Reconheço a verdade desta assertiva, mas a saudade, esta será uma eterna companheira. Parabéns, papai. (*) É bacharela em Letras.