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O p�ssaro e o homem na ramagem que range

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O pássaro livre e feliz continua a cantar mesmo quando a ramagem range, porque confia nas asas. O homem, ao contrário, quando a ramagem range, alarma-se, angustia-se, sente a vertigem, amedronta-se e, ansioso, procura um apoio, onde se possa firmar. Tudo porque não possui asas para voar. Aí está a história da criatura humana: é a história do medo, quando sente que os ramos se torcem: é a história do desespero, quando não vê mais saída, é a história da angústia quando se vê no vazio e na solidão. Quem poderá dizer que o pedestal da garantia vai durar muito tempo se, tantas vezes, o alicerce está sobre a areia e se o próprio orgulho se encarrega de derrubar a alvenaria?! E os casos de sucedem: ontem caiu um homem de alto conceito; não será a última queda de gente importante; anteontem, surpreendi dúvidas numa pessoa de boa reputação; não será a última decepção na terra. O homem é contingência, é finitude, é imperfeição, é embaraço, é desencontro, é descontrole, é pó inconsolável no monturo da estrada, por isso treme, quando, colhendo frutos, a ramagem range. E é o bastante para que se amedronte, se angustie e se espante na caminhada da vida. Entretanto, em meio a tanta angústia e medo, a quantos já não encontrei, na minha estrada, com a paz nas mãos e o sorriso nos lábios?! São aqueles que, senhores de suas contingências, de suas fraquezas, mesmo quando a ramagem range não se alteram, mas continuam serenos no caminho e, às vezes, até mesmo entoam uma canção diferente do trilar dos passarinhos. Surgem até pessoas que desejam amedrontá-los, mas eles continuam firmes, confiantes, porque sabem que possuem um apoio. São imperfeição e fraqueza, entretanto procuram onde firmar-se na confiança. São pessoas que iniciaram o trabalho de fundamentação, procurando alicerce na construção do edifício de sua vida. São pessoas capazes de confiar em alguém, por isso mesmo, quando tudo parece soçobrar, ainda encontram tempo para soltar aquele grito apostólico de esperança: ?Senhor, salvai-nos, porque estamos sendo destruídos?. No fim das contas, a essas alturas, estou revestido de felicidade, que me torna diferente daqueles que caminham comigo, na passarela da vida. (*) Publicação póstuma, o autor foi bispo de Palmeira dos Índios, escritor e presidente da Academia Alagoana de Letras; faleceu no dia 20 de março de 2010.

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