Opinião
Carta a um amigo
Querido amigo Fernando Iório, dirijo-me a você na esperança de estar sendo escutado, pois acredito que pessoas especiais, mesmo partindo desta existência, mantenham as características dos anjos, de serem luz, sabedoria e escuta em quaisquer das dimensões que habite. Quero dizer-lhe o que certamente você já sabe: sua passagem por aqui foi grandiosa, fecunda e acalentadora de muitos corações. A escolha de uma vida inteira dedicada à religião já fala por si, mas ainda não é suficiente para discorrer sobre a nobreza e beleza de um homem cuja maior característica era a amizade sincera. É desnecessário falar do brilhante intelectual que você foi, pois esta era apenas uma de suas inúmeras e radiantes qualidades. Aqui, todos lamentamos profundamente a sua partida, mesmo sabendo que cumprida a missão, um guerreiro retorna vitorioso para casa. Você aceitou cumprir a sua missão para com os propósitos divinos, tornando-se uma árvore frutífera que alimentou muitos de nós durante oitenta e um anos. O coração enfraqueceu, e no seu caso, como um sinal inequívoco de ter amado profundamente os que cruzaram seu caminho. Em sua jornada, você não apenas reconheceu a existência de Deus, como entrou na dimensão da obediência à sua vontade. Acredito que há um destino preparado para aqueles, que passando por esta terra cumprem a missão e seguem o propósito divino. Agora, você deve brilhar radiante no mundo celestial, recebido com as honras de quem retorna triunfante. Se tivéssemos permissão para isso, certamente pediríamos que sua jornada aqui conosco demorasse um pouco mais, para que tivéssemos o prazer de desfrutarmos mais um pouco de sua companhia. Pediríamos para termos o privilégio de ouvir o bálsamo de sua sabedoria, nas homilias pronunciadas na Capela da Imaculada Conceição. Ah, quantas pessoas, anônimas, foram aliviadas ao ouvir suas sábias palavras de reflexão! Quantas feridas saradas, corações emocionados, lares reerguidos, vidas retomadas pela sua suave, porém, firme compreensão da vida, em permanente construção! Permitam-me uma palavra de saudade a mais. Dom Fernando Iório Rodrigues, sacerdote dedicado, bispo emérito, imortal das letras, presidente da Academia Alagoana de Letras. Mestre de gerações. Um amigo, e, quando digo um amigo, digo alguém com quem se podia contar sempre. Com este querido pastor, não celebro a morte, celebro a vida. Mesmo porque acredito que o verdadeiro túmulo dos mortos é o coração dos vivos. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.