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Opinião

A inviabilidade da bondade

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Em uma ensolarada manhã de domingo, dessas em que não temos nada obrigatório por fazer, reuni as revistas que estavam dispersas e que passaram a semana órfãs de atenção e, com elas, refestelo-me no sofá. Abro-as e tediosamente folheio-as. Deslizo os olhos pelos artigos e interesso-me por um que tinha uma foto da médica Zilda Arns, recentemente falecida na catástrofe que se abateu sobre o paupérrimo Haiti. Como sabemos, drª Zilda Arns estava naquele país desenvolvendo o que mais gostava de realizar na vida: ser solidária e contribuir para minorar as agruras dos mais pobres e deserdados. Como há muito acompanhava e tinha curiosidade por tudo o que essa heroína fazia para dar ao país uma feição mais humana e aplacar as condições indignas dos brasileiros mais pobres, passei a ler detidamente o que continha o artigo. E assusto-me com o que ia dentro dele. O articulista ? acredito que um desses yuppies que só se interessam por livros de autoajuda empresarial ?, da forma mais disparatada possível, tentava traçar um paralelo entre a digna e exemplar trajetória de vida da doutora Zilda e as ?ideias vencedoras no mundo dos negócios?. O sacripanta, tentando enaltecer o ?dinamismo alucinante do mundo dos negócios?, deixava no ar que a obra da médica deu certo porque aplicou técnicas do mundo empresarial. Artigo desairoso, indecoroso com uma figura tão altiva. Ora, ora, sensível leitor, convenhamos: a distância entre o que a drª Zilda praticava e o insensível, ambicioso, vaidoso, impiedoso, voraz, traiçoeiro e brutal mundo das corporações é maior do que a que encontraremos para atingir a fronteira do universo. A vida da drª Zilda foi um hino à piedade, solidariedade e fraternidade. E o mundo empresarial é tão vazio como três desertos do Atacama para com estes sentimentos. O articulista esquece que, no mundo corporativo, o que mais existe é a impossibilidade e a inviabilidade de praticar a bondade. Melhor figura ele faria se buscasse comparações tomando como referência o formidável livro (A manilha e o libambo) do diplomata e historiador especializado nas questões da África e da escravidão, Alberto da Costa e Silva, para saber onde foram gestadas as ?modernas técnicas? do mundo empresarial. Ao leres esse livro, diletíssimo leitor, descobrirás, como eu, que princípios do mundo empresarial atual como terceirização de serviços, conhecimento do produto e do mercado e o paroxismo da busca do lucro máximo a qualquer custo, já eram praticados, com enorme sucesso, pelos traficantes de escravos na África desde o longínquo século 15. (*) É engenheiro mecânico.

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