Opinião
A �ltima farra
Mais político do que empresário, Geraldo Sampaio era mesmo, no duro, boêmio profissional, longa história nos restaurantes de Maceió, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Imediatamente ao desembarque, antes de colocar a mala no apartamento, passava logo no bar do hotel, onde inaugurava os trabalhos numa dose de uísque com bastante gelo. Apaixonado pela noite ? gostava de jogar conversa fora na madrugada ? sempre reunia amigos na celebração de alguma coisa, pretexto para tomar umas e outras. Fim de tarde ? coração movido a emoções ? convocou eu, Serginho Alencar, Marco Toledo e Carretinha, por muitos anos, aqui e em Palmeira dos Índios, seu disciplinado escudeiro. De repente, ajeitou os suspensórios, foi ao balcão, voltou com uma cerveja sem álcool na mão, tirou a tampa com os dedos e encheu o copo de Isnaldo Bulhões ? prefeito de Santana do Ipanema, deputado, secretário de Educação do Estado ? que havia chegado com uma hora de atraso. Papo alegre, descontraído, no centro do debate ? falando alto por causa do barulho da música Iracema ? seu ingresso no PDT e aliança com o então prefeito Ronaldo Lessa, que namorava seu nome para vice da chapa de governador. No final, deu um murro na mesa do requintado Matsubara, em Cruz das Almas, interrompendo o cochilo do garçom que, aguardando os últimos clientes, quase cai da cadeira com o susto. Acendendo mais um cigarro ? três carteiras no bolso do paletó ? pediu um compromisso esquisito: ?Quando morrer, não perdoarei a ausência de vocês no enterro!? ? encheu o rosto de lágrimas. Toledo tossiu, arregalou os olhos, e Alencar, coçando a cabeça, mandou ele repetir. Depois, cutucando o ombro de Bulhões, abriu a boca porque o sono ? estampado na cara ? dava sinal de que o corpo reivindicava descanso. Dono do Parque das Flores, Sampaio fez um desenho verbal do seu sepultamento, apontando para Carretinha, que estava com papel e caneta: ?Carreta vai avisar aos quatro no momento certo!?. ?Deixem os carros no cemitério e, sem pressa, sigam em direção à Polícia Rodoviária Federal, no Tabuleiro?. Engoliu mais uma lapada, deu um trago e, em seguida, completou: ?No primeiro boteco, peçam um tubo de aguardente e, sem tristeza, brindem em minha homenagem?. Serginho Alencar, que tem medo de alma, ameaçou ir embora: ?Você, Serginho, que é estrategista político, vai ficar com outra missão?. O acordo era para que, feito o brinde, ele respirasse fundo e, na volta, gritasse bem forte, dando um soco no ar: ?O Geraldão é f...?. Sortudo ? deputado, conselheiro do Tribunal de Contas, vice-governador ? nunca se esforçou para chegar lá. Homem de negócios, suas empresas ? a exemplo da TV Alagoas ? sempre foram administradas pelos filhos. No fundo, Geraldo Sampaio teve sabedoria para percorrer uma estrada de mais de 80 quilômetros, construindo uma multidão de amigos que, sinceramente, vai sentir sua falta. (*) É jornalista.