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Uma homenagem p�stuma

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Em reunião da Academia Alagoana de Letras foi prestada uma homenagem póstuma a dom Fernando Iório, recentemente falecido. Um momento de recordação de sua vida, de sua obra literária e de seu trabalho como presidente dessa instituição. Coube a mim, por delegação do acadêmico Milton Hênio Gouveia, que assumiu a presidência da entidade, a missão de proferir a saudação laudatória da Academia, ressaltando seus méritos e a riqueza de sua convivência. Alguns tópicos desse discurso (bem mais um depoimento pessoal), resolvi aproveitá-los nesta crônica, como registro de um momento inesquecível. Viajo ao arrepio do tempo, para recordar meu conhecimento com esse intelectual sacerdote. Corria o ano de 1972. Nessa época eu era diretor do Sanatório Severiano da Fonseca (hospital de tuberculose, hoje hospital geral), e, numa manhã, recebi um recado: ?o vigário de Bebedouro, padre Iório, quer falar com o senhor, ao telefone?. Atendi (não o conhecia) e ele me explicou que um de seus paroquianos era tuberculoso e pedia a visita de um médico em sua residência. E, sem outros preâmbulos, acrescentou: ?Venha o senhor, já o conheço de nome; vou esperá-lo na igreja para juntos irmos até lá?. Cumpri a missão de socorrer o enfermo. Na volta, conversamos demoradamente. Impressionei-me com sua cultura e erudição. Daí em diante, de quando em quando, alguém avisava: ?Dr. Medeiros, o padre Iório mandou um doente para ser internado?. Nem perguntava se havia vaga. E não errava diagnóstico. Meses depois, quando o reencontrei fiz-lhe uma proposta: ?Padre Iório, vou dividir meu diploma de médico com o senhor, que deve continuar fazendo o diagnóstico dos doentes encaminhados e eu faço somente os tratamentos. Quase médico, o senhor é?. ?Certo?, respondeu-me e riu a bom rir. Nascia, entre nós, uma grande amizade. Costumava afirmar: ?Uma cortesia custa pouco e vale muito?. Diagnosticar sua personalidade seria extremamente difícil: coragem, desprezo ao cansaço, otimismo, espírito empreendedor, verdadeira moenda intelectual, generosidade e lealdade. Temperamento inquieto, lançava-se à faina construtiva com entusiasmo. Dizia: ?O que me interessa, acima de tudo, é o ser humano, com seu destino e seus mistérios, seus sofrimentos e alegrias. Sinto-me unido a esse ser, porque o compreendo?. Com d. Iório, apagou-se uma das luzes promissoras da cultura alagoana; desabou uma árvore frondosa na floresta da vida. Tratou-se de alguém que dignificou as tarefas que lhe couberam executar. A Academia Alagoana de Letras reverenciou a memória desse ilustre confrade, com admiração e reconhecimento. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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