Opinião
A torcida est� de luto
Início da noite de domingo. O telefone toca e o número revela o retorno da ligação que eu havia feito. Do outro lado, o cumprimento em ritmo de doce provocação: ? Você não acha que chegou a hora de virar a casaca? ? Grandão! Pelo visto você está muito bem ? respondi, já entrecortado com o som do sorriso vindo do outro lado. Era o Luis Abílio comemorando a vitória do seu time do coração, o Flamengo, que acabara de fulminar o Vasco do campeonato carioca. Mesmo sendo eu tricolor, sabia ele da minha antitorcida. Conversamos amenidades, com ele otimista e determinado em restabelecer sua própria saúde. Tinha, inclusive, saído há pouco tempo do hospital e retornado para casa, depois de breve recaída pós-operatória. A notícia da morte do Grandão, que chegou com o alvorecer de ontem, pegou a todos nós no contrapé, como um drible desconsertante. Deixou de luto uma gigantesca torcida de tantas camisas díspares. Alagoas perdeu um grande filho, capaz de radicalizar na capacidade de exercitar o diálogo e a conciliação, mesmo diante de interlocutores irremediavelmente intolerantes. Como certamente diria um saudoso político alagoano, Luis Abílio era daqueles sujeitos dotados de paciência de ?jóquei?. Líder nato de sua categoria, Abílio virou até sinônimo de Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de Alagoas. É oportuno dizer que o mesmo só não ocorreu no Conselho Federal por sua opção de mergulhar nos meandros da política alagoana, cujo desfecho lhe gerou dissabores. Nem me lembro mais do número de cargos de primeiro escalão exercido por ele, tanto na Prefeitura de Maceió como no governo de Alagoas. Foram tantas as funções que só afloraram a sua visão pluralista da realidade. Para coroar seu currículo, tornou-se governador no dia 31 de março de 2006. Ronaldo Lessa, o titular, passava o bastão ao companheiro de longa jornada. Abílio então sentou na cadeira de chefe do Executivo, a mesma em que um dia sentara o seu pai, o desembargador Luis de Sousa. Como um parto, sua gestão durou nove meses. Governou democraticamente, e ainda teve tempo de carimbar seu nome em realizações, como a implantação da Delegacia da Mulher, em Arapiraca. Companheirão, era também bom de copo. Que o diga a legião de amigos, do saudoso Casablanca ao Boteco da Giu, no bairro do Poço. Ficam as lembranças e a saudade, esta um imenso oceano sem praia. (*) É jornalista.