Opinião
O novo c�digo e o terminal
JBS é um homem de 69 anos. Aposentado após mais de 40 anos trabalhando como pequeno comerciante em um populoso subúrbio de Maceió, há cerca de 20 meses atrás passou a sentir fortes dores na coluna vertebral. Após peregrinar por alguns postos de saúde, conseguiu chegar a um colega ortopedista muito alerta, que juntamente com o urologista constataram que por trás das dores na coluna existia um câncer de próstata que já metastizara para as vértebras e outros ossos. O seu caso, como muitos outros, foi diagnosticado já em uma fase muito avançada, quando a cura não era mais possível. Atendido na Santa Casa de Maceió, fez pelo SUS todos os tratamentos médicos disponíveis, além de terapia de apoio com a psicóloga, estendida também aos parentes mais próximos que o acompanhavam. Embora obtivesse forte alívio das dores e melhorasse do estado geral, algum tempo depois a enfermidade recrudesceu, espalhou-se para outros órgãos e o seu estado geral definhou enormemente. Ultimamente, era um sofrimento deslocá-lo de sua residência para o hospital. Quando, infelizmente, constatamos que a medicina não dispunha de mais nenhum recurso terapêutico que pudesse prolongar a sua vida indeterminadamente, chamamos a família ? o paciente deve ser preservado o máximo possível ?, e a informamos da cruel realidade. Como era de se esperar, a reação foi péssima. Questionamentos sobre métodos alternativos, heroicos, tudo para prolongar ao máximo a existência do paciente. Queriam interná-lo de qualquer maneira. Quando um parente mais lúcido e equilibrado me perguntou o que seria melhor para o paciente, afirmei: analgésicos potentes para que não sofra dores; cuidados higiênicos; deveria ingerir toda a alimentação que aceitasse e, principalmente, deveria ir para a sua casa, para o aconchego de seu cantinho, onde recebesse as atenções e o carinho de seus familiares nos seus últimos dias; enfim, para que tivesse um fim de vida digno, o que as enfermarias hospitalares nem sempre garantem. Em meus mais de 30 anos de exercício da oncologia, infelizmente como a metade dos pacientes é diagnosticada em fase avançada, convivo permanentemente com isso. O novo Código de Ética médica valoriza muito os cuidados paliativos, o que reforça nosso trabalho. Dificuldade adicional é quando a pobreza da família é tamanha que inviabiliza qualquer possibilidade de fazer a sua parte; aí, como os hospitais vivem superlotados e empobrecidos e o poder público é insensível, os médicos sozinhos por mais que sejam solidários, ficam extremamente limitados. (*) É médico e professor da Uncisal.