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O garimpo de Mindlin

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A quem se deu o prazer de ler Uma vida entre livros ? Reencontros com o tempo, do recém-falecido bibliófilo José Mindlin, ?amador da leitura e amador dos livros? no dizer do escritor Antonio Candido, percebeu que, além de tratar-se de suas memórias, escritas com muita vida, pois dizia ?não faço nada sem alegria?, é um belo relato de fatos pitorescos, para não dizer inusitados. A começar pela coincidência de, já estando com os originais de seu livro prontos, receber missiva de A. Candido sugerindo que escrevesse suas memórias. No dia seguinte foi à casa do amigo e disse: ?Meu caro, você, com sua carta, me deu um trabalhão danado. Passei o dia e a noite escrevendo, mas ao menos aqui está o livro que você sugeriu?. Nas tantas aventuras relatadas na busca incessante pelos livros, vem o interesse pelas primeiras edições. Uma delas, O Guarany (1857), de José de Alencar, foi oferecida no Rio, nos anos sessentas, por um grego que pedia a exorbitante soma de mil dólares. Nenhum colecionador comprou e quando soube já tinha ido embora. Aos que deixaram de adquirir disse estarem malucos; ?a gente vende um terreno e compra o livro?. Quase dez anos à procura do grego, soube estar num catálogo de um leilão na Inglaterra a tal primeira edição. Pensando não atingir um preço alto fora do Brasil, perguntou a um livreiro amigo quanto achava que custava. ?Umas vinte libras?. Alertou que chegaria a mais, porém queria comprá-lo. Estando em Nova York no dia do leilão, telefonou para saber por quanto havia comprado; não comprou por ter falado em vinte libras e quando chegou a sessenta parou, pensando que Mindlin ficaria bravo. ?Aborrecido estou agora?. Mas o livro não foi vendido. Em 1977, por insistência de sua esposa, dona Guita, foi a um leilão, em Paris, de livros raros sobre o Brasil. Lá, encontrou outro livreiro que disse ter uma surpresa para ele: ?O grego está aqui. O Guarany está comigo. Entenda-se com ele?. Diz ter sido uma epopeia a luta com o grego. Mas conseguiu comprar. De volta a casa disse à esposa: ?Sabe o que comprei em Paris? O Guarany?. ?Não diga!?. ?É, mas já perdi?. Havia deixado cair no avião e só três dias após a Air France localizou-o em Buenos Aires. João Cabral, quando esteve em sua biblioteca para lançar a edição de O Rio, achou estranho haver três volumes iguais das Poesias Completas de Machado de Assis, publicadas em 1907, pela Garnier. Em certo trecho, Machado diz: ?A afeição do meu defunto amigo a tal ponto extremo lhe cegára o juízo...?. Numa gritante falha, no ?cegara? foi trocado o ?e? pelo ?a? e logo visto. Só que, quando Machado corrigiu à mão alguns exemplares, uns já tinham sido vendidos com o erro. Após é que foi lançada uma nova edição. Portanto, lá estavam os três: um com o erro, outro com ele corrigido à mão e outro sem erro. Mindlin imagina ?como é que Machado não teve um ataque de apoplexia?. Uma outra relíquia, fruto de seu incansável garimpo, é a que chamou de ?certidão de batismo?. Vidas Secas foi para o prelo com o título de ?O Mundo Coberto de Pennas?. Na prova tipográfica, que está na biblioteca, Graciliano riscou o título e escreveu de próprio punho: ?Vidas Seccas?. (*) É bacharel em Economia.

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