Opinião
Fragmentos antropol�gicos do Rio S�o Francisco
Reconstruir o passado ambiental do ?Velho Chico?, quando era Opara, retornando ao tempo da sua descoberta, não passa de um sonho apenas sonhado, somente possível na imaginação de barranqueiros, apaixonados pela sua causa. O marulhar das águas límpidas, brotando das terras virgens das Minas Gerais, escorrendo como mel, serra abaixo. Um virgem manto verde de todas as matizes e de todas as flores e frutos, garantindo a beleza e a sustentabilidade do seu vale. A biodiversidade fauno-flora endêmicas, esbanjando-se num banquete de farturas, cantando na voz dos pássaros, a vida em comum. O brilho do seu ouro e das suas pedras preciosas, refletido nas entranhas das suas montanhas e no leito virgem do seu vale, ofuscando a beleza do sol. Sua gente, simples e bela, descendente de Iati, uma jovem índia, cujas lágrimas de saudade e paixão, rolando das pedras da Canastra às dunas do Peba, deram origem às suas águas, segundo a lenda. Oficializada a Colônia, com a chegada do homem branco, é dado prioridade ao povoamento do Vale, tendo a foz do rio como porta de entrada. Tem início o polêmico processo civilizatório, fazendo o nosso pau-brasil a sua primeira vítima, para atender à vaidade e ao consumismo europeu. O sistema de sesmarias, adotado pelos donatários e governadores gerais, promove uma bondosa e devastadora doação de terras, dando origem aos latifúndios, responsáveis pelas cicatrizes, ambientais e sociais, deixadas pela monocultura da cana e pela prática da escravidão. O Império muda a prioridade para o rio, voltando-se para a implantação do transporte fluvial e ferroviário, surgindo as primeiras barcas, com suas carrancas, e os vapores movidos à lenha, responsáveis pelo extermínio de toda a mata ciliar, entre Juazeiro, na Bahia e Pirapora, em Minas Gerais, numa extensão de mais de mil quilômetros. As linhas férreas Rio de Janeiro/Pirapora, Salvador/Juazeiro e Piranhas/Jatobá, planejadas para fazer a ligação do ?Velho Chico? com o litoral, foram totalmente abandonadas à própria sorte. Com a implantação da República, a prioridade governamental para o rio é a geração de energia elétrica, responsável pelo surto desenvolvimentista de todo o Nordeste e pelo aumento da pobreza em seu próprio leito, causado pela drástica redução da produção de arroz e do peixe, bases da sua economia, em função dos efeitos negativos das nove barragens, construídas para represar suas águas. Não satisfeitos com a insensatez política histórica, sempre indiferente às lesões ambientais causadas ao rio, a recorrência ao assunto transposição, ideia ainda dos tempos do Império, volta com força total, como marca de um governo que nos impõe mais um pesadelo, prometendo como compensatório, uma dissimulada e confusa revitalização, traduzida na construção de cisternas nas margens do rio, para colher a preciosa e bem-vinda água da chuva. Verdadeiramente, está ficando muito difícil continuar sendo gente, por estas margens destruídas, e nosso maior desafio, como seres humanos, parece ser nos salvarmos de nós mesmos, para que o rio permaneça vivo e a gente continue com o direito de sonhar os nossos sonhos! (*) É diretor-fundador do Museu Ambiental Casa do Velho Chico/Traipu-AL.