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Vivendo pertinho do c�u

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Em países em desenvolvimento como o Brasil sempre que acontece um desastre resultante da ação de fenômenos climáticos como enchentes, secas prolongadas ou ventanias, a primeira coisa que se busca é um culpado. Quem deveria ter feito algo e não fez? Essa é a pergunta que circula normalmente voltada para o passado, o que parece ser lógico. Ninguém usa o verbo no presente: quem está fazendo algo para impedir que diante de ocorrências naturais previsíveis haja menos mortes e danos materiais? Com mais de duzentos mortos no Rio de Janeiro, a grande preocupação é saber quem deixou que aquele terreno público onde havia um lixão a céu aberto fosse ocupado e urbanizado. O questionamento é intempestivo, pois, se alguma providência legal fosse ser tomada, seria contra muitos dirigentes, empregados e funcionários públicos, além de pessoas privadas e associações, pastorais e outras ONGs, as quais, em algum instante, levaram à construção de casas de alvenaria em terrenos instáveis, brigaram pela instalação de energia elétrica e água encanada, pavimentação das ruas e becos e até pela legalização dos lotes invadidos. A invasão de terrenos públicos fez escola na cidade do Rio de Janeiro. Em 1950, houve o primeiro ?Censo das Favelas?, onde se constatou que havia 35 mil barracos feitos de madeira, telhado de zinco e chão de terra. Depois de 1950, por decreto estadual, foi proibida a construção em terrenos públicos sem autorização da polícia, sim, dela mesma. Com o governo militar, as restrições aumentaram, porém a Pastoral das Favelas, visando dar aos moradores dessas localidades condições dignas, ao invés de trabalhar para tirá-los de lá, se uniu a advogados para tentar regularizar a posse das terras públicas invadidas, incentivando a substituição dos barracos pelas casas de alvenaria. Uma nobre missão que, por ser passional e pelo exagerado sentimento de piedade cristã, deixou milhares de famílias vivendo em situação de risco de morte permanente. Encerrado o governo militar, o populismo tomou conta do Rio de Janeiro e a capital passou a ser o maior exemplo de descontrole e desrespeito ao que é público. Milhões foram gastos para dar aos morros cariocas invadidos o aspecto de zona urbana regular, e até projetos sérios financiados pelos bancos Mundial e Interamericano se perderam no turbilhão de ações negativas de gestão pública. O Rio de Janeiro é uma cidade realmente maravilhosa e, apesar da destruição ambiental, encanta pelo contraste entre o natural, o antigo, o moderno e os morros. Não é à toa que as favelas cariocas foram exportadas para todas as capitais do Brasil e outras cidades de grande porte. Desde 1942, as favelas da cidade do Rio explodiram em um romantismo típico do nativismo e do cristianismo brasileiros, como se ouve na bela música de Herivelto Martins, Ave Maria no Morro. Nem telhado o barracão tinha! Em 1953, os compositores Luiz Antônio e Oldemar Magalhães lançaram Barracão de Zinco. A visão já não era tão romântica e clamava por solução para uma moradia pendurada no morro, pedindo socorro à cidade e reconhecia que o barracão era uma ?tradição do meu País?. Chega-se ao presente e se vê tão somente que a situação ficou pior. (*) É engenheiro Civil.

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