Opinião
V�rias Carlas
Acordei atenta aos noticiários da sexta-feira, pois antecede as comemorações do Dia das Mães, e toda a imprensa de uma forma ou de outra, traz para suas pautas as várias manifestações dessa condição. Todos e todas querem realçar esta condição sublime da maternidade, vista e revista de muitas formas. Numa das pautas, o Bom Dia Brasil, destacou a superação das mães de UTIs, mulheres que, dependendo do caso mostrado na reportagem, chegam a passar anos cuidando dos seus filhos, num leito de UTI, numa busca permanente da saúde perdida, da esperança da vida, mulheres de todas as idades e etnias. Mas, uma mãe de 23 anos, de uma criança com anomalia congênita, que opta pela não interrupção da gravidez, chamou-me atenção, sua luta que já dura mais de um ano. A tranquilidade, a certeza, a convicção do amor, deixando tão claro na sua emoção contida, a importância para ela da companhia quieta da sua pequena filha, que na luta diária de todas as formas de superação torna-se a sua maior companhia, aquela mãe, dizia ela, nunca estava só, tinha na filha sua grande companheira de luta. A programação continuava e entre as ofertas de presentes, que inundavam a grade das publicidades, chegavam também para os telespectadores, outras formas da expressão da maternidade, agora era a vez do programa Mais Você, com Ana Maria Braga, trazendo o caso da troca das crianças numa maternidade no Estado de Goiás. Duas famílias atingidas pela negligência de profissionais erro só identificado um ano depois. O momento da troca dos filhos entre as mães biológicas ? por decisão judicial ? que já têm laços afetivos com aquelas que amamentaram, deram carinho, cuidaram dos seus machucados e dos seus dengos, receberam como seus filhos, sem que fossem. O drama vivenciado por essas mulheres no processo de adaptação com seus filhos biológicos, e na saudade dos seus filhos de coração, realmente doeu assistir, coloca frente a frente à importância dos laços socioafetivos e mostrou a solidariedade de duas mulheres tentando se completar num amor compartilhado pelos filhos, a regra do jogo para elas e o bem-estar dessas crianças. Como fiquei orgulhosa dessas mulheres, e de tantas outras, que terão nesse próximo Dia das Mães que superarem tantos desafios, de cuidarem da sua prole. Aquelas mães que perambulam sem teto, que encontra na cobertura do céu, e na frieza das calçadas ou marquise, a força para enfrentar uma segurança particular que falou mais alto e acordou seu filho adoentado, deitado ali numa marquise, em frente a um banco da Avenida Paulista. O que falar das mães que estão com suas pequenas ou pequenos rebentos privadas de liberdade, e já transferindo para eles esta condição, mesmo que provisória, em função da importância do convívio, inquestionável. São tantas mães que merecem nossa lembrança, mas quero pedir a licença para voltar meu coração para uma em especial, o nome dela e Carla, jovem psiquiatra gaúcha, que por anos vem me dando suporte profissional na luta do meu filho contra a dependência química. Através de um telefonema de uma amiga querida fiquei sabendo da tragédia que se abateu sobre ela e toda sua família. Carla perdeu seu filho de pouco mais de um ano de idade, assim sem preparação. Eu fiquei com essa notícia martelando meu coração, envolvida com o turbilhão de emoção que todas as outras notícias eletrônicas me traziam, e as outras notícias que se não são ditas, mas que sabemos por forca do ofício que praticamos. Nunca sabemos o que dizer num momento de dor. A vontade de compartilhar o sentimento, como se pudéssemos dividir o sofrimento, a perda, como se pudéssemos encher o coração dessas pessoas com a solidariedade, com o carinho, com o amor, de forma a ocupar todos os espaços vazios desses corações. Carla, em todas as minhas orações, e de todas as formas de orações, meu pedido de guia para a serenidade e o conforto possível a você e os seus. (*) É secretária estadual da Mulher e Direitos Humanos.