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Opinião

Sou a�ougueiro

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Excetuando-se os bons profissionais, aos quais rendo homenagem, já não é de hoje esse distanciamento entre paciente e médico. Vem, inclusive, da própria formação. Houve época em que, para cada cátedra, existia um número satisfatório de leitos em hospitais ligados às escolas, para o bom ensino da prática médica. Mas, ao que parece, em algumas, é mesmo coisa do passado. Como se não bastasse, o maior responsável pela saúde pública, o governo federal, obriga o médico a consultas com minutos marcados, para que aumente o número de pacientes atendidos e os planos de saúde não repassem ao profissional os aumentos que a nós são impingidos. Daí não se conversar nem um pouco com o doente e muito menos se chegar a tocá-lo. O resultado é o que estamos assistindo pela televisão. Mulher com setenta anos diagnosticada como grávida, ainda mais de gêmeos; há tempos seu útero fora extirpado. Em outro Estado, obstetra realizando cesárea para retirada de ?vento?. Não havia gravidez. E tantas outras aberrações. Sou do tempo em que era diagnosticada uma apendicite pelo apalpar experiente do cirurgião ou clínico geral. Hoje, por qualquer tolice, pede-se uma ultrassonografia, exames de sangue, urina, quando não partem para outros mais caros. Se não for pelo SUS, talvez dê para escapar. Se for, já viu. Vai o pobre peregrinar pelos quatro cantos da cidade em busca de marcar os benditos exames. Se, por acaso, após o resultado, este for trocado por o de outro paciente, será mandado para casa como curado ou operado de qualquer outra coisa. Esse costume, que se arraigou no meio médico, fez-me lembrar a visita feita por dr. Ib Gatto ao seu caseiro, internado em hospital da rede pública. Em conversa, queixou-se ?seu? João de dores na região pélvica. Num toque, percebeu o mestre que sua bexiga estava cheia. À enfermeira pediu a presença do profissional responsável e logo apareceu um casal de estudantes. Fez-lhes ver a necessidade de ser colocada uma sonda para alívio do incômodo. Chegada a sonda, foi uma verdadeira epopeia a frustrada tentativa de passá-la. O velho cirurgião, há muito aposentado das lides hipocráticas, perguntou onde poderia lavar as mãos. Enluvadas, passou a sonda em seu servidor, quando foi questionado por um dos jovens: ?O senhor é médico??. Talvez, sentindo não ter sido reconhecido, dentro de um dos vários hospitais que criara, respondeu da sua maneira mais crítica com aquela característica voz gutural: ?Não, meus filhos, eu sou açougueiro?. (*) É bacharel em Economia ([email protected]).

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