Opinião
Brasil profundo
A. SÉRGIO BARROSO * A escravidão. Nós devíamos estar preparados para ver alguns conservadores, que se dizendo abolicionistas, combateram conosco os ministérios liberais-escravocratas, abandonarem-nos logo que se formasse o primeiro ministério escravocrata conservador. O sarcasmo, literal, é do pernambucano Joaquim Nabuco (?O eclipse do abolicionismo?, 1886), reclamando do descenso do movimento e por sua retomada. Monarquista convicto - isto submerso na idéia de unidade nacional -, somente aderiu à República em 1906. Escritor, deputado e diplomata, Nabuco é insuperável ao desvelar a cicatriz da escravidão entre nós: ?Foi isso que a escravidão, como causa infalível de corrupção social, e pelo seu terrível contágio, reduziu a nossa política? (?O abolicionismo?, 1883). Os sertões. O avô de Euclides da Cunha foi traficante de escravos, mas seu pai, guarda-livros de fazendas fluminenses. Inversamente a Nabuco, Euclides foi um republicano ardoroso, além de abolicionista, somente levado ao ceticismo com o novo regime político, após viver a expedição do Exército contra Canudos. Também ambíguo sobre o papel de Floriano Peixoto, Euclides fundou o Partido Socialista em S. J. do Rio Pardo (SP). Em ?Os Sertões? (1902), os vaqueiros da região conflituosa são ?servos submissos?, originários dum ?feudalismo tacanho?. Sertanejo raça autônoma, forte antes de tudo; e mestiços litorâneos raquíticos ?neurastênicos?. Dizia depois: a presença estrangeira (e a imitação cosmopolita) ?transforma o filho de um país num emigrado virtual, vivendo, estéril, num ambiente fictício de uma civilização de empréstimo? (em ?Contrastes e Confrontos?). Canais e lagoas. Da Viçosa alagoana, Octavio Brandão - fã de Euclides e de Shakespeare - foi bater em Moscou, ajudando os soviéticos a enfrentar os nazistas. Antes (1928), foi vereador (intendente) no Rio de Janeiro, eleito pelo ?Bloco Operário-Camponês?. Para escrever ?Canais e Lagoas? (1916-17), esquadrinhou 1.500 quilômetros das Alagoas, sendo 600 a pé. Como ele próprio diz, entre legiões de mosquito do paludismo, atravessando cidades e povoados, litoral interior, vales, chapadas, ilhas e baixios, matas e capoeiras, campinas e tabuleiros. Aos 21 anos, observou o historiador Rocha Pombo, Octavio Brandão já era ?de rara erudição, sobretudo em ciências naturais e história?. ?Canais e Lagoas?, afirmou Monteiro Lobato, ?é uma verdadeira revelação como coisa nova, meteoro de estranho fulgor?. A atual organização social ? escreveu lá Brandão ? ?é a causa essencialíssima da miséria do nosso povo?. Alma brasileira. O sábio Luis da Câmara Cascudo era o potiguar de raízes mais profundas que se tem notícia ? ?sou um provinciano irrecuperável?, dizia sorrindo. Natal era seu mundo. É verdadeiro que, certa feita, num restaurante em Zurique (Suíça), após única viagem que fez ao exterior (África), o antropólogo, sociólogo, folclorista, etc., impressionava seu interlocutor ao grudar os olhos num esbranquiçado garçom, desenvolto e de inglês impecável. Ao aproximar-se da mesa ? ?good evening?, diz o galego -, Cascudo esbafora seu inseparável charuto e, de bate-pronto, dispara em português : ?De que região do Ceará você é?? ?Sou de Baturité, sim senhor !?, responde o dito cujo. Em ?Lendas Brasileiras?, Cascudo descreve uma serra da Barriga de Zumbi, onde ?Não havia ricos nem pobres, nem furtos nem injustiças?; do seu cimo, Zumbi ?brandiu a lança espelhante e saltou para o abismo... o guerreiro que viveu na morte seu direito de liberdade e de heroísmo? (?A morte de Zumbi?). (*) É MÉDICO