Opinião
Maria Theresa
Eu bem me lembro da professora Maria Theresa de Medeiros Pacheco. Foi num janeiro que conheci ?Dinda?. Pelo dia, ela mesma me ligara, a pedido do saudoso amigo doutor Ib Gatto Falcão, quando então a convidei para a minha posse no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Durante a recepção, logo mais à noite, sob a musicalidade solene da banda do Exército, eis que de um carro desce uma senhora elegantemente erguida com seu ar aristocrático, guardando ainda os traços de moça loiramente bela, e cuja voz empostada me parabenizava. Meses depois, recebo um novo telefonema seu. Convidava-me para ir pronunciar a conferência em comemoração aos 110 anos de seu sempre querido mestre Estácio de Lima (1897-1984), no velho Anfiteatro Alfredo Britto, da pioneira Faculdade do Terreiro de Jesus. Recebeu a mim, aos meus pais, Marcos e Nanci, e à minha irmã Carol com amabilidade desde a noite anterior, quando jantáramos num restaurante português, sob a vigília do turístico Farol da Barra. Numa manhã, ao nos buscar no hotel, ela fitou-me por uns segundos: ?Nunca perca esta sua palidez?. Concebia charmosa a minha face algo macilenta, de quem raramente vai à praia e prefere o noturno. Na verdade, ela recordava o seu inesquecido professor Estácio, razão pela qual eu me encontrava em Salvador, a convite de baianos e de alagoanos abaianados. Antes de deixarmos a capital baiana, a professora mais uma vez derramou sua atenção sobre nós pela orla e Pelourinho; almoçamos, e ela rompeu um tanto com a sua cerimônia algo majestosa e bebeu cerveja com minha irmã Carol, apimentando, sob influência já muito legitimamente baiana, a sua refeição. Até me censurou ironicamente: ?Sem pimenta não dá pra ser baiano, hein?!? Engraçado é que toda vez que a querida amiga passava uns dias em Alagoas, quase sempre absorvida por preocupações para com a família, de que foi um esteio, ela carinhosamente me discava: ?Bom dia, doutor Marcos, estou por aqui... E você, namorando muito?!? E gargalhávamos a valer. Logo nos uniu mútua admiração. Bairrismo de alagoanos. Ela costumou designar-me em público ?o Castro Alves das Alagoas?. Eu apenas me ria, dada a lisonja desmesuradamente gentil. Relembro agora a última vez que a vi: visitei-a no apartamento de uma sua irmã, na Pajuçara; na ceia, serviu-se uma sopa de ervilhas. Num de repente, rarearam-nos os contatos. Mal sabia eu que ela sentia pesar-lhe (sem que o demonstrasse, vaidosa que era) a idade. Até que, há umas semanas, o meu conterrâneo Lamartine de Andrade Lima, seu assistente, confessa-me as agonias derradeiras da amiga comum. Nascida na Usina Rio Branco, Atalaia, há oito décadas, educou-se em São Miguel dos Campos, Penedo e Maceió, onde embarcou no navio Itaimbé e, guiada pela paixão que os consumiu segredamente, sucedeu na cátedra o seu professor Estácio. Perdemos, na tarde de 12 de maio, a primeira titular de uma cadeira de medicina legal em todo o planeta, com experiência alicerçada pela África e Europa. Cremada a sua matéria, o seu desprendimento de mulher, em defesa tenaz do gênero, por muito tempo permanecerá conosco. (*) É sociólogo.