Opinião
Lula e o acordo iraniano
A viagem de Lula ao Irã, onde perseguiu junto ao inescrutável Ahmadinejad um acordo que propiciasse o uso civil da energia nuclear, embora fosse taxado pelos líderes ocidentais no mínimo de ingênua e não inspire confiança nem nos vizinhos China e Rússia, muito menos pela improvável ingenuidade de Lula e muito mais pela total desconfiança inspirada por Mahmoud, traria, caso concretizado, relevantes resultados para o comércio bilateral, inclusive a medicina. Justifico: muitos avanços na medicina decorrem da biotecnologia: recentemente em Londres, no Univesity College nasceu o primeiro bebê selecionado para não ter um gene relacionado ao câncer de mama: o embrião foi escolhido para não ter um gene, o BRCA-1, que aumenta muito o risco de câncer de mama e de ovário. Ocorre que a mãe da criança recém-nascida, uma mulher de 27 anos, tivera três gerações em sua família ? a avó, a mãe, uma irmã e a prima ? com câncer de mama; daí procurou eliminar em sua filha o gene causador deste câncer. Como o pai também tinha o gene, sem a intervenção da ciência a menina teria entre 50% e 80% de chances de desenvolver o tumor, por isto a equipe médica examinou diversos embriões e selecionou um que estava livre deste gene. A semana passada, o periódico The Lancet Oncology publicou um artigo liminar: o câncer de boca cujos principais causadores conhecidos são o álcool e o fumo apresenta um novo agente etiológico: é o HPV 16, um vírus transmitido oralmente e através do sexo no contato das mucosas. Até então, este vírus vinha sendo identificado prioritariamente nos cânceres uterinos. Em relação especificamente ao uso da energia nuclear para fins pacíficos ? no caso o anunciado objetivo de Lula no Irã ? além do uso na agricultura e nos alimentos, na medicina os elementos radioativos são utilizados eficazmente em Medicina Nuclear, para diagnóstico de várias doenças graves e freqüentes (cardiopatias e câncer principalmente) e na Radioterapia para tratamento curativo do câncer. Anualmente, pelo menos 18 milhões de pessoas com estas enfermidades são amplamente beneficiados e suas vidas salvas pelo uso da energia nuclear em todo o mundo. É fato que no Brasil o SUS é um caos e não recebe atenções devidas das autoridades; mas, detalhe importante: estes elementos radioativos faltam constantemente no mercado internacional, causando sérios problemas à assistência médica mundial. Se Lula está trabalhando pelos interesses comerciais brasileiros ou se é campanha para ser secretário-geral da ONU, isto a ciência não saberia dizer. (*) É médico e professor da Uncisal.