Opinião
Expostos ao fogo
Tragédia que serve como alerta e grave lição para todo Brasil, o incêndio do Butantan causou um prejuízo irreparável. E o mais grave é que a precariedade nos sistemas defensivos de instituições de pesquisa é um traço comum em quase todo o território nacional. Segundo o divulgado, as autoridades ainda estão pesquisando as causas do acidente. Mas, antes de qualquer detalhe que possa ter iniciado o fogo, é óbvio e ululante que as condições adequadas para um incêndio em enormes proporções existiam desde há muitos anos. Conforme apurado pelas reportagens sobre o sinistro, os animais pesquisados estavam acondicionados em vidros com álcool, segundo as normas internacionais. Mas não seguiam a normatização que determina uma série de regras preventivas para reduzir o risco desse alto potencial incendiário. Funcionários e cientistas ouvidos pela imprensa foram unânimes em reconhecer e denunciar o descumprimento das normas de segurança, com os vidros com álcool acondicionados em estantes de madeira e com as salas desprovidas de paredes e portas corta-fogo (e outros equipamentos destinados a evitar a propagação das chamas). O resultado do incêndio no Butantan é dramático. Espécimes reunidas a mais de um século e essenciais para o estudo dos répteis e sua evolução simplesmente viraram cinzas, assim como registros escritos (tudo indica que em obras de cópia única) sobre décadas de estudos. Fundando em 1901, pelo cientista Assis Brasil, o Instituto Butantan tornou-se uma referência mundial no estudo de animais peçonhentos desde os tempos onde seu fundador salvou a vida de um pesquisador acidentalmente picado por uma serpente num evento científico em Nova York. Naquela ocasião, o brasileiro produziu, in loco, nos momentos seguintes ao acidente, o soro apropriado, sagrando-se simultaneamente como cientista e herói. Nos dias em curso, porém, só um super-herói conseguiria salvar nossas instituições de pesquisa de riscos de tamanho porte.