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Heteronomia: verdadeira autonomia humana

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Com certa frequência, nesses últimos anos têm sido discutidos temas ligados à vida humana, como o aborto e a eutanásia. Desse debate emergem ?vozes? clamando pelo direito à autonomia do ser humano. De fato, o princípio da autonomia é um bem inalienável ao ser humano. A Bioética (reflexão acerca da vida e de sua preservação) é norteada por três princípios: o da beneficência (agir bem), o da justiça (promover a equidade), e o da autonomia, que consiste na capacidade do ser humano de optar pelo seu bem-estar. Portanto, não se discute aqui a autonomia do ser humano. É ele unicamente aquele ser capaz de orientar a sua vida. No entanto, a capacidade de direcionar a própria vida não significa assumi-la como um bem absoluto. Quando isso ocorre, não há espaço para qualquer reflexão em Bioética. Afinal, se o homem é ?dono da sua vida?, suas decisões particulares não interessam a ninguém. Por outro lado, se a vida é compreendida como um dom, a autonomia humana deixa de ser tão somente capacidade de decisão. Quando a vida é reconhecida como um dom imerecido, somente pode ser vivida em relação a um outro transcendente. Nesse sentido, a verdadeira autonomia é, na verdade, heteronomia. O homem é capaz de decidir quando é capaz de dialogar, quando se reconhece parte de um mistério que lhe ultrapassa: a vida. E para os cristãos, o homem é livre para decidir quando o faz diante de Deus, tendo como paradigma Jesus Cristo. Por isso é heteronomia, uma autonomia em relação ao outro. Não precisa ser cristão para reconhecer a heteronomia humana. Basta ser um homem livre de ideologias reducionistas para perceber que o mistério da vida humana escapa ao domínio de uma razão prática e utilitarista. Esse é o grande desafio para a igreja e para os cristãos de maneira geral. As críticas que surgem às posições católicas sobre a vida emergem porque tais críticos simplesmente partem de princípios opostos à sacralidade da vida. A sociedade laicista ocidental é relativista e individualista, e há muito tempo deu de ombros para qualquer expressão religiosa institucionalizada. A igreja, por outro lado, contempla a vida em seu mistério, desde o seu surgimento até o seu declínio natural, dizendo com as palavras do salmista: ?Senhor, que é o homem? Pouco abaixo de Deus o fizeste.? (Sl 8,5a-6a). Somente nessa contemplação está a liberdade para decidir. (*) É psicólogo e seminarista.

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