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Opinião

Choque anafil�tico

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Pedro Petronildo era um hipocondríaco incorrigível. Tomava remédio por qualquer sintoma de doença que imaginasse ter. E o que é pior, estimulado pela propaganda medicamentosa que invade os lares de todos nós. A mulher dele, Anastácia, reclamava quase todos os dias: ?Querido, acabe com essa mania e procure um médico, se você for alérgico a algum tipo de droga pode se complicar?. Mas ele não cedia um só milímetro: ?Minha filha, você parece não acompanhar a modernidade e a evolução do Estado social. Será que você não vê que o governo está defendendo a saúde dos seus cidadãos??. E assim seguia a vida de Petronildo, comandada pelas demandas da hipocondria. Se sentia um formigar nas pernas, tomava Varicel; se imaginava dor nos ossos, tomava Calcitran; se uma veia enxerida saltava do anus, aplicava Hemovirtus; se se sentia cansado, tomava Biotônico Fontoura; se apresentava sinais de tontura, tomava Ginko Biloba; se a memória falhava, tomava Memoriol; se não evacuava, tomava Lacto Purga; se... Sempre preocupados, a mulher e os filhos não se cansavam de dizer que ele devia procurar um médico. Mas Petronildo sempre se saía com o mesmo argumento: ?Amor, ao permitir a propaganda, o governo está nos indicando os remédios para as doenças que eventualmente somos acometidos?. Certo dia, Petronildo acordou com fortes contrações na cabeça. Tomou Doril e a dor não sumiu. Engoliu dois comprimidos de Anador e a dor não passou. Os espasmos foram fortes que derrubaram o pobre homem. Ele queria falar, mas não conseguia, faltava-lhe a respiração. Quando Anástacia viu que o marido estava todo intoxicado, levou-o para um hospital. O médico procurou a pressão arterial e não a encontrou, auscultou o coração e não ouviu as batidas da vida. ?Não temos mais nada a fazer?, disse ele. Depois dos exames, o próprio médico assinou o atestado de óbito: ?Petronildo fora acometido por um choque anafilático, provocado pela incompatibilidade de drogas existentes no seu organismo?. O advogado Pedro Petronildo Filho, que acompanhou o martírio do pai, reuniu a família e fez uma revelação inesperada: ?Papai foi o autor material que deu fim a própria vida, mas estou convencido de que ele foi induzido a isso. Gravei as propagandas da TV e estou juntando todos os medicamentos que ele tomava, a fim de processar os assassinos?. Surpresos, todos perguntaram: ?Quem são os autores intelectuais do crime, então??. E o Petronildozinho respondeu: ?O Estado e o capitalismo, nessa ordem de culpabilidade?. Os espasmos foram tão fortes que derrubaram Petronildo no assoalho. (*) É contador.

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