Opinião
O dia em que Traipu parou
Ainda estamos atordoados com a sua ausência. Com a expectativa de uma espera que nunca chegou. Com uma banda despedaçada, solfejando soluços. Com uma batuta aflita, vagando a esmo, sem seu dono, pela Rua das Flores. Com um triste choro, sussurrando partículas de decibéis, como se fosse um engasgo coletivo sufocante. Com o barulho estarrecedor do nosso silêncio atônito. Com o gotejar descontrolado das nossas lágrimas, intervindo no aumento da umidade, apesar do céu tão azul, como se fosse um último apelo seu, para ajudar a salvar o nosso querido Rio São Francisco. Tudo parou na nossa Traipu. Assim foi a sua despedida, no último dia 29 de abril, maestro Antonio Basílio. Uma gente confusa e órfão das suas notas. Um povo sofrido em dó maior. Dó de fazer dor. Dor da sua saudade. Saudade de uma batuta transformada em dedo. Dedo que apontou o futuro e o destino de mais de uma geração de traipuenses e outros ribeirinhos. Geração que tem o compromisso, em forma de música, de dar continuidade ao seu exemplo. Exemplo que muito nos orgulha e dignifica a nossa história musical. História cujo ciclo você foi o escolhido, pelos seus irmãos, Pedro, José, João e Manoel, os irmãos Basílios, para, com muita dignidade, encerrar. Furtando o poema de Drummond, e recordando as nossas frequentes, longas e agradáveis conversas de esquinas... e agora, Tonho? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Você que fez versos, está sem Carminho, está sem Léo, está sem Paulinho. O dia não veio, a banda não veio, e tudo acabou. E agora Tonho? Sua doce palavra. Seu instante de fé em Nossa Senhora do Ó, seu trompete de ouro. Com a batuta na mão quer tocar a banda, não existe banda, quer morrer no rio, mas o rio secou; quer subir a Tabanga, não há mais Tabanga. Tonho, e agora? Se você tocasse um frevo pernambucano, um dobrado ou um hino, se você dormisse, se você morresse... Mas você não morre, você é eterno, Tonho, pelo menos enquanto ecoar um solo perdido, em nossos bucólicos e estreitos becos. Obrigado amigo, descanse em paz! (*) É secretário de Meio Ambiente de Traipu-AL.