Opinião
As crian�as dos tempos modernos
Participei há poucos dias, em Belo Horizonte, de um fórum sobre ?As transformações da criança e do adolescente no século 21?, organizado pela Academia Brasileira de Pediatria e a Nestlé. Foi discutida por grandes psicólogos brasileiros e médicos pediatras a difícil situação em que se encontra a nossa criança, decorrente das atitudes dos pais e do pouco tempo de que dispõem para cuidar delas. É preocupante nos dias que correm o elevado número de lares incompletos, de lares desfeitos, de lares negligenciados, de lares brutalizados, onde a violência atinge os casais na frente dos filhos. Outro fator é que a sobrevivência vai ficando cada vez mais difícil para a população, e o número de casais que trabalham fora é cada vez maior, deixando os filhos em creches com dois e três meses ? quando precisam da presença da mãe ao lado deles. E como será no futuro essa criança que passa a crescer sem ver a mãe o dia inteiro, sem ouvir a sua voz, sem olhar nos seus olhos? Se a mãe dá amor e carinho o bebê ganha confiança para explorar o mundo e aprender; mas se não tem apoio afetivo, fica estressada e o medo impede que ela se desenvolva. É o caso de milhares de crianças que nos tempos modernos vão para a escola com 1 ano de idade; um absurdo, mas, a mãe alega que não tem com quem a deixe. Psicólogos do desenvolvimento como Gessel afirmam que as crianças não estão prontas para aprender a escrever e a ler, enquanto não atingem a idade mental apropriada. Infelizmente, nos dias atuais, por uma necessidade dos pais que trabalham, essas crianças são levadas a ler e a escrever sem que estejam prontas para isso. Há cada vez mais escolas onde as crianças são treinadas a ler cada vez mais cedo. Está provado: crianças ficam estressadas quando lhes dão deveres precocemente. Assim, porque os pais estão sempre ocupados, procuram manter os filhos sempre ocupados, aprendendo já com 4 ou 5 anos inglês, natação, judô, competição, aulas particulares, tudo ao mesmo tempo. Fazem isso como se fosse bom para os filhos, mas estão, sem saber, prejudicando-os, estressando-os, roubando-lhes o direito de uma vida de criança, passeando com os pais e os avós no parque, olhando o rio que corre, brincando na areia e jogando bola na relva. A criança de hoje não tem o que recordar. Nos tempos modernos temos que nos preocupar com a juventude, porque ela representa o futuro do nosso Brasil. Não é a inteligência que pode salvar o mundo, mas a ternura adquirida na infância, vivida dentro de uma família com pleno amor. A droga, essa praga que se dissemina como uma epidemia pelo mundo, é resultado de uma infância infeliz. (*) É médico ([email protected]).