Opinião
A indiferen�a com os cadeirantes
Há poucos dias assisti na televisão a uma cena que me causou hilaridade e me fez lembrar algumas de minhas estripulias acontecidas em viagens pela Europa. A reportagem mostrava um rapaz fazendo um ?racha? numa estrada em sua cadeira de rodas, adaptada com um motor de motocicleta. Não possuía um braço e as duas pernas eram mecânicas, mas ele vibrava de alegria com seu feito. Logo um guarda de tráfico o interceptou e prendeu, aplicando-lhe razoável multa. O acontecimento me fez lembrar as vezes que tenho feito coisa parecida em minhas viagens ao continente europeu, quando as calçadas de certas cidades se tornam intrafegáveis ou não existem rampas adequadas ao acesso a cadeiras de rodas. Sigo tranquilamente pelo asfalto, disputando o espaço com ônibus, carros, motos, sem nenhum medo, confiante na responsabilidade dos motoristas que seguem ao meu lado, pois lá não existe a impunidade que campeia no Brasil. Coitado daquele que ousar apenas me tocar! É claro que me resguardo do trânsito, não fazendo nenhuma loucura. Nunca fui nem advertida nem multada. As cidades europeias estão, de um modo geral, muito bem preparadas para a circulação de cadeirantes. Há, porém, algumas ruas menos centrais que, às vezes, apresentam problemas, obrigando-os a procurar o asfalto para passar. O que me causa admiração nesse continente tão adiantado, num contraste incompreensível com a iniciativa pública, é que muito poucas lojas e restaurantes estão preparados para receber os deficientes físicos. Em Paris, depois de procurar na chiquérrima Avenida George V um restaurante onde pudesse entrar com a cadeira, pois chovia e fazia muito frio, tive que me conformar e sentar sob o toldo da calçada (a que eles chamam ?terrasse?) para almoçar. No Brasil é um absurdo! Hoje, somente a Avenida Paulista, em São Paulo, foi recentemente preparada para os deficientes. Não existe a mínima preocupação com esse tipo de cidadão que também paga impostos, esgoto, energia elétrica pública, enfim, tem as mesmas obrigações dos outros habitantes do País. E o povo mesmo, ainda não se educou para respeitar os poucos redutos reservados a esses necessitados de ajuda. Hoje, todos os estabelecimentos públicos e comerciais são obrigados a possuir acesso e lugares reservados nos estacionamentos para essa categoria, mas a maioria das pessoas não dá a menor importância e ocupa esses espaços, sem remorsos. Esquece que um dia, é quase certo, logo na maturidade, ela terá, igualmente, problemas com as pernas. Primeiro incômodo que aparece quando a idade vai chegando! E é uma lei sujeita à multa. Mas elas, como muitas outras, no nosso País, não são cumpridas! (*) É membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste.