Opinião
Certas coisas que nos fazem lembrar
Quando eu, na minha longa infância, nos meados dos meus 10 anos de idade, aproximadamente, li o meu primeiro romance, lembro-me como se fosse hoje, o livro era Dom Casmurro, de Machado de Assis, um livro complexo, daí li várias outras obras e enquanto isso, no outro lado, meu pai fazia-nos (meu irmão e eu) ouvir repentes, aboios e toadas e lia para nós ?clássicos? da literatura de cordel. Ficávamos putos da vida, pois achávamos aquelas músicas de ?corno, velho?, etc. Só mais tarde pude perceber o quão enriquecedoras eram, tanto no aspecto cultural e pessoal. Jurava eu que os escritores, poetas, eram pessoas intocáveis! Os imortais das academias, o próprio nome já dizia, ?imortais?, e eu, que vinha de uma realidade dura, não poderia ao menos chegar perto e falar? Quem viu. Até conhecer e conversar com um dos melhores escritores, pelo menos para mim, e que escreveu uma obra-prima que virou até filme, Ariano Suassuna. Em uma de suas visitas a Alagoas pude então perceber que eles (os escritores) são gente como a gente e eu que já escrevia pude despertar para o desejo que já era latente em mim. Recordei-me desses fatos quando em visita ao Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), núcleo Reginaldo, a convite da coordenadora Adriana, através de uma grande amiga, Fátima Vieira, que é estagiaria de Serviço Social, me fizeram um convite para um bate-papo informal com os garotos assistidos pelo programa e eles me recordaram num primeiro contato tudo que vivi. Tudo bem que eles tiveram acesso antes ao meu primeiro cordel, Versos Livres, que publiquei em 2008, através de uma doação que fiz, e sabiam que eu iria falar com eles, mas mesmo assim foi um flash. Pude sentir que cada realidade, cultura, influência nos gostos musicais, literários, que são dos mais variados. Pude ver a influência do reggae, destes forrós (se é que eu posso chamar essas músicas baixas de forró) e ainda mais estilizados. Uma educação que é falha em todos os âmbitos na rede pública, tanto estadual quanto municipal, e fica à mercê de um sistema, ignorando outras culturas, mas que com um jeitinho pode-se apresentar e quebrar o tabu, pois o desconhecido nos trás um certo ?preconceito?. São trabalhos como esses, conversas como essas, que nos fazem, nós escritores e poetas populares, mostrar que somos ?também? seres humanos, e que eles podem ser escritor, poeta, de preferência popular. Pois acredito que essas iniciativas despertam o gosto à leitura e conduz a uma autoestima, tanto para o leitor, quanto para o escritor. Está de parabéns a equipe, que fez com que esse encontro fosse possível e fica aí a deixa para que a sociedade, o poder público, as empresas incentivem a cultura de uma forma em geral, gerando assim um debate crítico e incentivador em todas as esferas, tanto nas escolas, nos bairros, na sociedade, pois a ?Cultura Vive e Persiste?. (*) É estudante de Jornalismo e poeta popular de Alagoas.