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A paz: fruto do resgate da espiritualidade humana

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Na semana passada, uma menina de seis anos foi estuprada e enterrada viva por seu próprio tio. Barbaridades como esta, cada vez mais corriqueiras, nos chocam e nos colocam diante de uma questão: como pode o homem, capaz das mais belas realizações, descer a tal nível de crueldade? Viktor Frankl, psiquiatra alemão, exemplo eloquente das vítimas da brutalidade dos campos de concentração, diz que a força estruturante do homem não são os instintos, dentre eles, os sexuais. Para ele, o ser humano é muito mais que isso. Este possui também uma dimensão inconsciente espiritual que perpassa todo o seu psiquismo. Tal dimensão promove as aspirações mais profundas do coração humano, principalmente a busca de sentido para a vida, para o amor, para a dor. É o desenvolvimento dessa espiritualidade que permite a passagem dos atos instintivos aos atos espirituais, a passagem da ignorância para a descoberta de que somos seres destinados à promoção da nossa própria vida e da vida do próximo. Quando descuidamos da espiritualidade, passamos a ignorar a presença do belo e do bom em nós; tornamo-nos bestas entregues à sanha dos próprios instintos. A violência nasce justamente quando ocorre a ruptura entre o psíquico e o espiritual. O homem como ser espiritual, como ser ontologicamente aberto aos mais altos valores, é uma verdade há tempos tratada como coisa de religião. Racionalidade e espiritualidade são vistas como realidades antagônicas. O resultado é um mundo cuja medida de tudo é um indivíduo ambíguo, que deseja o amor, mas promove o ódio; que anseia pela vida, mas constrói uma cultura de morte. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, afirma que uma das grandes contribuições do Cristianismo ? entenda-se da Igreja católica -? ao Ocidente foi ter posto um freio aos instintos humanos, fazendo o homem aspirar a realidades mais profundas. Em certo sentido, ele tem razão. Freud acerta quando diz que a fé cristã tem algo a contribuir na promoção da paz. Engana-se quando afirma que essa contribuição é simplesmente de caráter coercitivo. Ao contrário do que muitos pensam, o Evangelho não possui simplesmente uma função castradora na sociedade. A contribuição que o Cristianismo tem a oferecer para uma cultura pacífica, portanto mais sadia, é a integração humana, reestruturando-a nas suas diversas dimensões ? psíquica, espiritual, afetiva ?, há muito tempo rompidas. O próprio Cristo diz que nos dá a paz, mas não como o mundo a dá (cf. Jo 14,27). Diz isso porque a paz não é ausência de conflitos, mas fruto de um coração reintegrado com a beleza ignorada em nós mesmos. (*) É psicólogo, bioeticista e seminarista ([email protected]).

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