Opinião
O lixo e a sustentabilidade
No dia 30 de abril do ano em curso, foi concretizada uma antiga aspiração da sociedade alagoana: a inauguração do aterro sanitário de Maceió ou centro de tratamento de resíduos. Na obra, segundo a mídia, foram investidos cerca de R$ 4.000.000,00, verba oriunda dos cofres municipais. Com o implemento da nova forma de tratamento de um dos maiores problemas do novo século ? o lixo ? ficou oportunamente explicitada uma outra questão social, provavelmente mais delicada do que a minimizada com a construção do aterro sanitário: a continuidade da sobrevida dos pobres catadores que habitavam, há anos, no entorno do antigo lixão, no bairro de Cruz das Almas. O desespero dos incautos trabalhadores, que ocasionou diversos protestos, deixou patenteada a ausência de um planejamento estratégico, sério e racional, que deveria ter antecedido à inauguração da importante obra. Ouvimos, após a revolta dos involuntários ?miseráveis?, a exposição de algumas providências por parte do poder público, no sentido de minimizar o sofrimento dos mesmos ? muito tênues para as básicas necessidades daqueles seres humanos. Em Maceió, são produzidas diariamente, 1.592 toneladas de lixo; um grande paradoxo em relação à grande quantidade de pessoas que sobrevivem na capital, abaixo da linha de pobreza. Ainda não conseguimos compreender o porquê da não implantação de uma coleta seletiva do lixo produzido diariamente, tanto pelas residências, quanto pelo comércio e pela indústria! Temos a plena convicção de que a implementação de uma campanha publicitária, veemente e contínua, ocasionaria uma formalidade do trabalho dos catadores, através da organização dos mesmos em cooperativas de reciclagem, com o apoio econômico do governo e operacional das universidades. Em Maceió, aconteceram tímidos avanços, com a organização de algumas delas, mas que ainda sobrevivem, tropegamente, pela ausência efetiva desse apoios. Uma dessas instituições, a Cooprel (Cooperativa de Reciclagem de Alagoas), que surgiu com a exoneração de alguns funcionários da antiga Cobel, devido à reprovação em concurso público, tem recebido algumas ajudas governamentais, mas os seus trabalhadores ainda não alcançaram a sonhada emancipação humana. É absurda a quantidade e variedade de materiais, secos e molhados, que são descartados, indevidamente, na natureza, causando transtornos de várias espécies ao meio ambiente, por falta de políticas públicas genuínas que, com certeza, trariam sustentabilidade para uma boa parte da população carente e até mesmo para artistas plásticos que transformam o lixo em verdadeiras obras de arte. O óleo bcomestível descartado após as frituras é um exemplo patente de desperdício; esse material, que é jogado nos esgotos, poderia ser reutilizado como matéria prima para a fabricação de sabão e, esse processamento, somente seria viabilizado com o apoio do governo. (*) É professor do Cesmac.