Opinião
Retorno �s minhas origens
Quando volto à minha terra, ao torrão onde nasci, à velha casa onde passei minha infância e adolescência, acode-me extraordinária emoção, seca-me na boca o riso e reacendem-se lembranças há muito esquecidas. Como venho resfriado há muitos dias, pergunto-me: o que faria minha mãe? Com que meizinhas e chás caseiros ela me trataria? Vou ao quintal e, com tristeza, observo que não mais existe o cercado, rodeado de pau a pique, onde ela plantava suas ervas medicinais. Naquela época, médico, naquelas paragens, somente era encontrado a sete léguas de distância (mais de 30 quilômetros) e procurado em doenças de gravidade. Há uma palavra oriunda da ecologia largamente utilizada: biodiversidade. Refere-se à riqueza de áreas verdes, mas, no meu caso, tenho em mente o aproveitamento farmacológico de recursos naturais. Afirmam os estudiosos que o Brasil possui 10% de toda a biodiversidade do planeta; são sete mil plantas já catalogadas na floresta amazônica, muitas das quais ricas em essências com propriedades medicinais. Os irmãos Villas Boas conviveram com os índios do norte do Brasil; aprenderam com os pajés e caciques o uso de produtos medicinais de ação eficaz contra doenças, picadas de insetos e cobras venenosas. Pretendo fazer uma ligeira incursão na tradição de chás e infusões. Quem duvida dos efeitos terapêuticos da camomila, da erva-cidreira, da hortelã e da erva-doce? De igual forma, do maracujá e do chuchu, do sambacaetá e da quebra-pedra, do eucalipto e do capim-santo? São conhecimentos empíricos, da experiência do dia a dia, muitos já estudados na farmacologia; estão bem fincados nos pilares da doutrina popular. Entre os mais idosos, poucos escaparam dessa terapêutica caseira, materna e tradicional: limão nas gripes e resfriados, erva-cidreira e capim-santo como calmantes e sedativos; o alho e a berinjela para controlar excessos de colesterol. Uma substância antidepressiva contida na erva são joão é conhecida como o ?prozac?; nasce no campo. Substitui, popularmente, o científico produto medicamentoso, sem os seus efeitos colaterais. Até o câncer não escapa dos ipês-roxo e amarelo e da babosa, uma plantinha feiosa, que muitos dizem ser anticancerígena. Ganharia o Prêmio Nobel de ?adivinhação? (se existisse), aquele que souber quantas substâncias medicamentosas e naturais há em plantas brasileiras. É a riqueza da biodiversidade a serviço da saúde. Pode parecer saudosismo, mas as plantas medicinais brasileiras não somente curam, fazem milagres. (*) É médico.