Opinião
1970-2010, avan�os e retardos
Os 4x1 na final da Copa do Mundo de 1970 deram ao Brasil o inédito tricampeonato mundial. Foi a primeira copa transmitida ao vivo pela televisão. O presidente Médici abriu os jardins do Palácio da Alvorada e saiu em mangas de camisa com uma bandeira na mão e uma bola no pé. No Brasil inteiro se cantava: ?Noventa milhões em ação/ pra frente, Brasil /do meu coração. /Salve a seleção!?. Para azeitar a euforia, o crescimento econômico do país era excepcional: o PIB subiu 10,4%; a expansão do setor industrial foi de 11%. A construção civil parou por falta de cimento. A inflação permaneceu comportada abaixo de 20%.Era o Brasil Potência, que se tornava a 10ª economia mundial. Enquanto os rojões estouravam nas ruas, militantes da ALN atiravam de winchester das janelas de um aparelho em Copacabana. A oposição fora às ruas com faixas pedindo ?Democracia e desenvolvimento?, sugerindo que existia uma interdependência, mas a ditadura acenava com vigoroso progresso econômico. Um em cada dois brasileiros achava que sua vida estava melhorando e sete entre dez acreditavam que 1971 seria ainda melhor. Era o milagre econômico. Iniciavam-se as obras da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói e da usina nuclear de Angra dos Reis; a Embraer recebia 230 milhões de dólares para construir o primeiro jato brasileiro. O índice Bovespa triplicou em 3 meses. O censo de 1970 mostrou que os mais ricos aumentaram a sua participação na renda em 9% e detinham 36,3% dela, enquanto a faixa dos 80% mais pobres aumentou em 8,6% e detinha 36,85%. A latere Médici criou o Funrural, que concedeu salário mínimo para todo trabalhador rural que completasse 65 anos. Mas ao êxito econômico não correspondeu nenhum desenvolvimento político. Alardeava-se a ideia de que a ditadura garantia prosperidade. A imprensa amordaçada foi o único setor da atividade produtiva severamente punido: jornais como Última Hora, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Estado de São Paulo foram perseguidos e maltratados. Médici governou o País silencioso, discreto e com escrupulosa honorabilidade pessoal. Percebeu apenas os proventos da presidência (equivalentes a 724 dólares mensais) e nada mais. Sua mulher decorou a granja do Torto com móveis usados recolhidos no deposito público. Adiou um aumento de carne para vender os bois de sua estância na baixa. Desviou o trajeto de uma estrada para que ela não lhe valorizasse as terras. Hoje, 40 anos depois, a situação econômica assemelha-se e é inquestionável que ocorreram relevantes avanços na democracia, o mesmo não pode se dizer dos costumes e das práticas políticas dos mandatários do poder. (*) É médico e professor da Uncisal.