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O crucifixo e a tradi��o ocidental

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A proibição da ostentação de símbolos religiosos em locais públicos proposta pelo novo Programa Nacional de Direitos Humanos causou polêmica. Tanto que, à pressão da Igreja e de outros segmentos religiosos, o governo voltou atrás e retirou o dispositivo. A tal proposta afetava diretamente a exposição do crucifixo, tão comum nas repartições públicas brasileiras, ao mesmo tempo em que revelava um movimento em curso há algum tempo no Ocidente: a tentativa de apagar suas raízes judaico-cristãs. O Ocidente, numa atitude autofágica, tenta, a todo custo, negar os pilares que constituem sua identidade. O crucifixo para os ocidentais não é um símbolo reservadamente católico. Vergá-lo em locais públicos não significa dizer que o estado tem preferência por um grupo religioso. Toda pessoa em uso de sua razão sabe que Brasil é um estado laico. Mas o que o crucifixo tem a dizer a nós ocidentais? Voltemos ao Judaísmo. O monoteísmo ético do povo hebreu é algo que rompeu com a experiência religiosa do mundo antigo. A concepção de um Deus uno, transcendente e bom, revolucionou a experiência humana com o sagrado. Diferentemente dos outros povos, o Deus dos judeus não se identifica com as forças da natureza; Ele está acima delas. Há, portanto, a desmitificação da natureza, pré-requisito para o pensamento científico. Outra característica do Deus dos hebreus é sua total autonomia. Deus é livre e concede ao homem, sua maior obra, a autonomia moral, a capacidade de decidir entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. É diante desse Deus que o homem toma consciência de ser uma pessoa autônoma, um dos pilares no qual foi construída a nossa tradição ocidental. O legado judeu foi transmitido ao Cristianismo. Este, por sua vez, apresenta-nos Aquele que se tornou o paradigma de uma liberdade consciente, que se descobriu pessoa em diálogo com Deus e em defesa da redenção dos homens: Jesus Cristo. O próprio conceito de pessoa foi cunhado durante os debates conciliares sobre a Santíssima Trindade nos primeiros séculos da nossa era. E eis aqui outro dado interessante: na afirmação da realidade pessoal, livre e soberana de Deus, revela-se a individualidade do homem, sua realidade pessoal livre, capaz de direitos e deveres. É dessa tradição que o crucifixo se tornou símbolo, sinal do homem ocidental, capaz de sonhar tal alto e avançar no campo do conhecimento porque é livre das amarras do mito e consciente de que ocupa um lugar especial na criação divina. Ostentar o crucifixo é orgulhar-se de nossa história. Negá-lo é rejeitar o lugar onde nos compreendemos como pessoa, a tradição ocidental. (*) É psicólogo, bioeticista e seminarista. ([email protected])

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