Opinião
As paix�es da Copa
Antes do início da Copa do Mundo alguns dos mais acreditados centros de cardiologia brasileiros alertaram: durante os jogos iria ocorrer uma elevação de 30% do número de infartos do miocárdio no Brasil. Ainda faziam recomendações: beber pouco álcool, evitar café em excesso e dormir. Sugeriam que os mais passionais não assistissem aos jogos do Brasil. Só não alertaram para as limitações da seleção do Dunga. Pelo primeiro jogo contra a inocente Coreia do Norte a nossa seleção com Kaká e Luis Fabiano fora de forma e sem maiores opções no banco, primou pela previsibilidade. Apresentamos uma equipe onde a rigidez do sistema tático obscurecia as outroras tão apreciadas qualidades do nosso jogador, principalmente a imprevisibilidade, a habilidade, a rapidez e a criatividade. E o nosso futebol não é isto, é muito mais o Santos de São Paulo, único time brasileiro com um padrão de futebol a moda, digamos antiga, para não dizermos, simplesmente bonita, gostosa de se ver e que além disso consegue vencer e convencer. A globalização parece que não fez bem ao futebol brasileiro: enquanto para nos habilitarmos a ganhar o hexa, sacrificamos o nosso padrão ouro de jogar futebol e nos apresentamos sem identidade, nem futebol brasileiro nem europeu, fica a dúvida: isto é somente uma opção, ou a atual geração dos nossos jogadores é de fato limitada? Mas futebol, principalmente nesta época de Copa do Mundo é antes de tudo desarvorada paixão; um fervor religioso toma conta dos torcedores brazucas e se algum apóstata questionar o modelo adotado por Dunga, isto se transforma em heresia, em blasfêmia. No outrora fraterno café da manhã com os companheiros de caminhada, como simples palpiteiro fiz estas preocupadas considerações e ainda cai na besteira de elogiar a equipe de Maradona:foi como beijar Lúcifer em um culto da Igreja do bispo Edir Macedo, fui massacrado, chamado de ateu, Argentino e traidor da pátria. Será que a essência do futebol deve o ser prazer de ver o bom e o belo e que vença o melhor naquele momento, seja por talento ou por preparo, ou é indispensável que se ganhe de qualquer jeito, principalmente que perca o tradicional adversário, independente da geração privilegiada que apresente? Um francês afirma em um livro sensacionalista (Le Massacre dês Indiens ) que a média de infartos fatais é de dois por gol no Maracanã. Torcedor inseguro, anseio antes pelas grandes melhoras que a seleção precisa, que consiga se apresentar como nas eliminatórias, mas se continuar jogando assim, quantos serão os infartos por jogo? (*) É médico e professor da Uncisal.