Opinião
O feij�o e o vinho: um verdadeiro causo de amor
Naquele dia, quando pulei o muro da casa da vizinha senti a falta dos latidos. Na verdade, os cachorros estavam presos, daí a minha facilidade de entrar calmamente pela porta da cozinha. A cozinheira me fez um sinal de ?psiu?, depois me disse: ?Seu Nicolau está morrendo, acabei de levar a vela para Dona Milu botar na mão dele?. Não deu 2 minutos, Dona Milu entrou na cozinha e foi logo dizendo: Bastiana, pegue um prato fundo e bote feijão, arroz, farinha d?água e charque, que eu vou comer?. A cozinheira retrucou: ?Mas isso é tudo que lhe faz mal! A velhinha respondeu: ?Minha filha, fui eu quem viveu 60 anos com ele! Faça o prato, deixe de conversa e vá ajudar a segurar a vela na mão dele!?. Daquele dia em diante passei a me perguntar sobre o que seria o amor, quando é que ele nos encheria a alma ou quando nos esvaziaria a fome. Hoje eu penso que um amor é sempre um amor, mesmo sendo um ex-amor. Comove o nosso íntimo e, ainda quebra o nosso segredo, quando nos faz olhar para trás. Se foi renitente, traz um alívio. Se foi impossível, traz um suspiro. Melancólico amor, respingado em tortos poemas. Ah! Deles, a gaveta andava cheia. Um dia desses, enquanto caminhava em meio a um burburinho de gente, escutei uma música. Âncora de lembranças, lembrou-me um ex-amor. Querido amor! Tão cheio de surpresas! Foi um amor no tempo certo. Daqueles que chega quando a sala parecia estar vazia, já perto de apagar a luz. Chegou veloz, cheio de palpitações, trazendo uma primavera antecipada. Quando presente, as horas pareciam únicas ? mas instantâneas. Quando ausente, deixava um sentimento de eternidade irrevogável. Os olhos? Sorriam sempre, e, diligentemente, sempre procuravam. O perfume era assinatura. As cores, pintura de aquarela. Mesmice? Nenhuma! Porque tudo era novidade, apesar dos velhos diários caminhos. Naquele tempo, prestei mais atenção no entardecer e contei mais estrelas cadentes. Esperando ver o sol nascer, descobri o quanto as ruas, tão solitárias durante a madrugada, eram construídas para facilitar os encontros. Os ouvidos, incansavelmente se submetiam à repetida música. E, não mais de soslaio me dedicava ao espelho. Queria estar certa de que seria vista no que mais tivesse de belo. Esta parece ser uma das ilusões da pessoa apaixonada: desejar ser recebida pelo incondicional acolhimento do olhar apaixonado, que graças a Deus é, até um certo ponto, míope, e por isso nos acolhe como uma mão em uma luva feita sob medida. Mas, em tempo imprevisto tornou-se amor partido. Não sei se soube que foi amado dessa forma. Provavelmente não. Na despedida, não tive vontade de comer feijoada, mas tomei uns bons cálices de vinho tinto. Tadinha da Dona Milu! Nunca soube o que era isso. (*) É professora da Famed/Ufal.