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Os deserdados do lix�o

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Recentemente os habitantes do antigo lixão de Cruz das Almas entendamos a expressão de forma literal - realizaram mais um protesto, inconformados com a equivocada distribuição das cestas básicas oferecidas pelo governo como minoração do sofrimento, acentuado, daqueles seres excluídos do mundo social, após o fechamento do lixão. O protesto, essencialmente esse, idealizado e conduzido por pessoas involuntariamente incautas, causou uma série de transtornos à população, aparentemente estranha ao problema; na verdade, esses protestos teriam sido evitados, caso tivéssemos compreendido que aquelas famílias também faziam parte do processo e como seres humanos teriam que ser priorizadas nas discussões preliminares à escolha do local do aterro sanitário. É mister da nossa cultura resolvermos os problemas que nos aparecem com imediatismos frágeis e inconsistentes, sem a percepção, muitas vezes até humanística, da verdadeira acepção social do problema. Com a construção do moderno aterro sanitário, minimizamos uma questão bastante importante, porém, ainda, os mentores políticos não aprenderam a perceber que intuições isoladas não possuem bastante influência sobre a concepção sistêmica. Apenas, podemos considerá-las como medidas paliativas e inconsistentes, muito aquém do desenvolvimento social e econômico requerido por todos. Ao nosso ver, o urgente e inadiável processo de reciclagem do lixo, através de uma coleta seletiva planejada seriamente, e a organização das pessoas carentes e desempregadas em cooperativas, tantas quantas forem necessárias, representaria, hoje, a única alternativa para a aquisição da dignidade humana para esses seres, ora excluídos social e economicamente. Antecipamo-nos aos mentores governamentais e afirmamos que a implementação desse ?novo modelo?de inclusão não representa uma tarefa tão fácil, afinal, estamos tratando de um problema bastante delicado, pois envolve, de um lado, pessoas despreparadas e desesperadas e do outro, uma gama imensa de gente que ainda não possui a consciência do valor do lixo que é descartado diariamente e que, invariavelmente, provoca a obstrução de galerias pluviais e, por conseguinte, uma série de transtornos para suas próprias vidas. Aqui na nossa capital, temos três exemplos patentes da ausência de uma política adequada de reaproveitamento do que a natureza nos oferece com abundância: a concha do sururu, a casca do coco verde e o óleo de soja pós-fritura. Todos esses materiais, de reconhecido valor econômico, são descartados equivocadamente na natureza, provocando danos irreparáveis ao nosso já combalido meio ambiente. Urge que sejam priorizados investimentos na coleta seletiva e reciclagem do lixo, ou continuaremos a assistir aos protestos contra a distribuição de esmolas equivocadas. (*) É professor do Cesmac.

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