Opinião
Meu her�i soldado
LINCOLN CAVALCANTE * Porto Alegre, 25 de agosto de 1940. Eis-me, no Parque Farroupilha, perfilado no pelotão da 3a Cia. de Infantaria, para cerimônia do juramento à Bandeira. Era o aluno 356 da Escola Preparatória de Cadetes, após os quatro meses de sua incorporação ao Exército, aprovado no ?carro de fogo? da etapa inicial da EPC. Manhã fria, chuvosa, garoenta, típica daqueles tempos e paragens gaúchas. A chuvinha fina, vinda desde a madrugada, encharcava o meu V. C (verde oliva) e mal me permitia enxergar o palanque das autoridades. Corpo molhado, tremera de frio antes do brado do ?Pelotão, Sentido! Em continência à Bandeira?! Mas, por dentro, este 356 da EPC, comandado do Cap. Walter (entre nós, de tão rigoroso... e pouco brilhante, nós o tínhamos por ?Cabo Walter?), sentia-se esquentado, confortado, vibrante, sob o acelerado do coração e a emoção até o término da promessa de defender a Pátria ?com sacrifício da própria vida?. Tornei-me, assim e aí, um soldado de mesmo! Por que o ?de mesmo?? Soldado eu já fora, desde a infância, em Capela, em nossa Alagoas, seja ao marchar nas paradas do Grupo Escolar Torquato Cabral, seja, vezes quantas, na brincadeira preferida, batendo o meu tambor de lata ou com cabo de vassoura ao ombro (meu fuzil metralhadora), cabeça coberta com um capacete feito de jornal, contando ao passo marcial de 1.2... 1.2... 1.2... e entoando a Canção do Soldado: ?Marcha, Soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai ser preso no quartel?. Ou, então, imitando a tropa do ?Tiro de Guerra? (que na época havia nas maiores cidades), cantando: ?Nós somos da Pátria a guarda, fiéis soldados, por ela amados, nas cores da farda, rebrilha a glória, fulge a vitória?. E quando o irmão mais velho, o Luiz, fugiu de casa, com 16 anos, para assentar praça como voluntário da Revolução de 30, o meu ideal de criança aumentou, ou melhor, multiplicou. De junho de 1930 (quando se alistou, em Recife) até 6 de dezembro de 1931 (data da sua primeira carta), não nos deu qualquer notícia. Tivemo-lo como morto. Até missa se rezou! Aquela carta da sua ressurreição valeu-me o nascimento do ?irmão-herói?. Começava assim, bem me lembro: ?Papai e Mamãe, abençoe-me. Sou cabo. Estou servindo no 2o Batalhão de Caçadores, em Niterói? ... Daí em diante, fez-se sargento, sargento-aviador, cadete, aspirante, tenente, capitão, major, coronel e general, na reserva. Simultaneamente, na vida civil, aí conhecido como ?Major Luiz?, eleito sempre por voto direto e secreto, deputado federal (2 vezes), senador da República (2 vezes) e governador de Alagoas. Acredito que poucos brasileiros iguais a ele, inclusive na galeria dos nossos heróis. Tenho-o por similar a Caxias (Patrono do Exército); aos Marechais de Alagoas, Deodoro e o Floriano do ?Receberei à bala?; ao Antônio João, em Dourados, protestando e morrendo, em defesa do solo pátrio; ou o meu preferido para patrono da Marinha, Marcílio Dias, enrolando-se e queimando-se com a nossa bandeira na Guerra do Paraguai. Já se foram os tempos em que a meninada inteira adorava aquele brincar de soldado e tivéramos todos, ricos ou pobres, a nossa roupinha de marinheiro. Quem, adulto, se militar, honrava-se em andar fardado pelas ruas, tal estivesse numa vestimenta de passeio fino ou até de gala. Hoje, nem os padres usam batinas, nem os homens paletós... menos os da Justiça, os evangélicos, ou nas cerimônias. E as mulheres? Estas, quanto mais jovens e bonitas, se desnudando. Coisas dos tempos modernos. Será bom? Não sei. (*) É professor da Ufal aposentado.