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Opinião

Sem nada

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As enchentes que atingiram 26 municípios alagoanos repercutem em todo o mundo, com imagens transmitidas pelas grandes redes internacionais de TV. Alguns comparam os estragos aos provocados pelos tsunamis, outros aos cenários de guerra vitimados por bombas. A tragédia une os alagoanos no socorro às vítimas nas variadas manifestações de solidariedade. Os relatos dos sobreviventes chocam, são registros de perda total dos poucos bens que tinham, sequer sobraram roupas e calçados que pudessem ser aproveitados, água potável e comida são artigos raros. Os resgates com utilização de helicópteros, pequenos botes infláveis e barcos foram operações realizadas com elevado grau de risco, momentos em que fora revelado o heroísmo dos nossos bombeiros. As cheias levaram consigo registros de cidadania de muitos alagoanos arquivados em cartórios que foram totalmente destruídos, formando uma legião dos ?sem-nada?. Centenas de postes de distribuição de energia elétrica foram arrancados pelas correntezas, que ameaçam também as represas d?água que, se rompidas, a tragédia será maximizada. Alheios a tudo isso, integrantes do movimento dos sem-terra invadiram o prédio da Eletrobras Alagoas, empresa responsável pelo fornecimento de energia elétrica aos alagoanos, inclusive àqueles sem nada. Uma avalanche de insensibilidade. Dali saíram em direção às ruas centrais de Maceió exigindo a exoneração do superintendente do Incra. Considerado como movimento social, imaginava que os ?sem-terra? depois de incomodar aos que trabalham na recuperação das redes de distribuição de energia, saíssem em direção aos ?sem-nada?, levando o conhecimento acumulado na instalação rápida de acampamentos de lona, na queima de pneus e madeira para ofertar abrigo e aquecimento aos desabrigados. Imaginava os ?sem-terra? disponibilizando a mão de obra de seus jovens seguidores na distribuição de donativos, ofertando seus novíssimos bonés vermelhos e camisas estampadas com enxadas, foices, facões apontadas para o alto, chapéus de palha clarinhos sem marca de suor, além da logística para arrecadar fundos. Imaginava as enxadas descendo em direção à lama, os facões desobstruindo passagens de galerias e esgotos, foices cortando os galhos das árvores caídas sobre a rede de distribuição elétrica ainda desenergizados, promovendo um verdadeiro arrastão de solidariedade. Mas não, eles foram para a praça dos sem-terra, antiga Sinimbu, lá possivelmente queimarão pneus, obstruirão o trânsito, ?passarão uma chuvinha? dentro do Incra, seus jovens seguidores irão para um banho de mar, à noite e, como ninguém é de ferro, um animado forró, com tudo. (*) É delegado de Polícia Civil. [email protected]

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